A explosão de um conflito interior insuportável

Contraposta à representação de fenômenos externos, percebo a grande arte como a explosão de um conflito interior insuportável. Quer dizer: o artista imprime aquilo que o atormenta ou o objeto de seu desejo irreplegível. Obsessões psicológicas, sentimentos que o atacam violentamente… a grande arte é consequência de uma guerra interior. Exatamente por isso, é raro que se apresente como agradável. Intensidade nada tem que ver com paz…

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Rindo-me do que enfurece…

Reparo-me com enorme contentamento os desacatos à polícia da linguagem que, como a polícia dos costumes, pretende-se senhora da razão. Acho engraçado e orgulho-me da rebeldia. Sinto-me chegado, pois, dos crucificados que sempre me despertaram a admiração…

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A ilusão de liberdade poética

A evolução da poesia ao longo dos séculos passa-nos uma falsa ilusão de liberdade angariada, deixa parecer a nós que, no decorrer dos séculos, os poetas foram paulatinamente se livrando das amarras dos versos até alcançar o verso livre.  Em parte, os poetas provaram-se capazes de quebrar antigas convenções, introduziram novos recursos expressivos (o enjambement, por exemplo) e alargaram as possibilidades estéticas da poesia. Mas é falso que pensar que, sentando-se a compor, o poeta sente-se livre quanto à forma, mesmo em verso livre. Isso, é claro, se for bom poeta. Mas por quê? Porque ainda que abra mão da métrica, das rimas, varie as estrofes e extrapole os limites do verso, o poeta estará preso ao ritmo. Se pretender compor um bom poema, não é livre para colocar as palavras onde quiser. Ritmo, balanço entre sílabas tônicas e átonas, movimento cadenciado de sons: no dia em que for considerado bom o poema que ignore esses princípios, seremos todos — de analfabetos a filisteus — grandes poetas.

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O problema da originalidade

Interessante como o dever de originalidade assombra o escritor médio. Quer dizer: antes de expressar-se com sinceridade e potência, tem de ser original. Mas a originalidade, a menos que o escritor deliberadamente se valha de uma fórmula pronta, plagie e recuse-se a pensar com independência, aparece de forma natural. Primeiro, porque as interpretações psicológicas dos fatos, a relação travada entre o indivíduo e a realidade circundante são variáveis e quase únicos. Segundo, porque as biografias, estas sim, são absolutamente individuais, ou seja: cada escritor possui experiências únicas a serem transmitidas para sua arte. Por isso, a menos que tencione ser alguém que não a si mesmo, qualquer meia dúzia de linhas sinceras fará com que o escritor pareça sempre original.

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