A facilidade com que um autor aborda os seus temas preferidos esconde o quão perigoso pode ser imitá-lo. Lendo-o, parece tudo muito simples. Mas é simples porque a abordagem nasce de uma inclinação autêntica, e esta não é imitável. Para descobri-lo, porém, às vezes é preciso experimentar. E disso não escapam nem os melhores. Um belo exemplo são as Americanas de Machado de Assis. Certamente, a um amigo que pudesse ver-lhe interiormente, enxergar-lhe as obras futuras e o potencial criador, bastariam meia dúzia de versos para que viesse a recomendação jocosa: “Ora, meu bom Joaquim! Largue essa coisa de Anhangá e tacape! Você nem sabe o que é isso”. E, decerto, não haveria melhor conselho: o autor daqueles versos não era Machado de Assis. O duro é que, na prática, só é possível dizê-lo porque Machado, sozinho, percorreu a trilha das falhas para se descobrir e se nos revelar.
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Tudo o que envolve a criação de uma obra literária…
Tudo o que envolve a criação de uma obra literária, tal como aquilo que diz respeito à evolução na arte da escrita, é irrelevante se não fundado no compromisso da dedicação regular. Indispensável, só esta parece ser. E só esta parece garantir, por si só, tanto a obra como a evolução, ainda que não se planeje muito, ainda que não se estude muito. A prática revela o verdadeiro de qualquer teoria e, sem ela, nunca se alcança a real assimilação. Assim, a despeito de todas as diferenças e inclinações particulares, neste ponto identificam-se os grandes mestres da literatura universal.
Nunca errará o escritor que se concentrar…
Nunca errará o escritor que se concentrar naqueles temas propriamente seus, ainda que deixe de lado outros tantos que poderiam tornar-lhe a obra mais abrangente. Por essa abrangência, às vezes paga-se o preço da dispersão. E como são notórios os trechos em que o escritor se manifesta com toda a intensidade de que é capaz, faz bem que neles se concentre, que em torno deles construa o que tiver de construir. Trabalhando desta maneira, mesmo os excessos passarão diminuídos pela sinceridade que naturalmente abundará numa obra que, conscientemente, alvejou o essencial.
A técnica do romance moderno…
A técnica do romance moderno, que expande as cenas, apresentando-as com maior riqueza de detalhes e explorando as minúcias interiores e exteriores dos acontecimentos, tem lá suas vantagens. Mas, às vezes, tem-se a impressão de que tal detalhamento enfraquece o enredo. Se tomamos como exemplo os contos populares antiquíssimos de algumas civilizações, vemos que, muitas vezes, a narrativa varia, os detalhes variam, podendo até haver mais ou menos cenas a depender da fonte; não varia, contudo, a sequência lógica da história, e nesta reside a sua força. O curioso é o seguinte: estes contos antigos, mesmo se narrados esquematicamente, desprovidos de artifícios literários, produzem praticamente o mesmo efeito; já um romance moderno, se desprovido das particularidades do estilo do autor, transforma-se noutra coisa bem diferente. As narrativas antigas facilmente podem, como foram e são, ser contadas oralmente sem que muito se perca, algo impossível de se fazer com um romance moderno. Este, só pode contá-lo o autor, e pelas linhas que já escreveu. Talvez, isso signifique que a história nunca ganhe verdadeira autonomia, o que pode ser favorável ou não.