Se fosse estabelecida uma escala com os níveis de compreensão literária, ou de inteligência linguística, seguramente haveria um nível que a maioria das pessoas razoavelmente inteligentes, com alto QI e boa capacidade argumentativa, não alcançariam, e é o nível que capacita a identificar uma expressão concebida esteticamente, uma expressão que se justifica pelo efeito que produz. Realmente, quantos o não alcançam! A maioria dos “inteligentes” se recusa a não se aferrar ao sentido das frases, e portanto parecem desconhecer haver mais do que a semântica, a lógica e as figuras de linguagem mais óbvias. São aqueles incapazes de apreciar um autor como Cioran, ou como Nietzsche, ou até certos trechos de Pessoa, porque “não concordam” com aquilo que leem. O curioso é que, embora seja instintivo taxá-los de imaturos, tal nível de compreensão parece realmente difícil de ser alcançado por aqueles que não exercem o ofício de escrever. Exercendo-o, tudo se torna muito simples: basta propor-se, ainda que por brincadeira, talhar algumas frases impactantes; e então ficará evidente que o exagero, e mesmo a adulteração do pensamento, às vezes, produzem um resultado muito superior.
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Um bom ponto a partir do qual o escritor…
Um bom ponto a partir do qual o escritor se poderá considerar efetivamente um profissional das letras é aquele em que começa a sentir prazer no estudo da língua, isto é, começa a gostar de percorrer terríveis gramáticas, estudos linguísticos complicadíssimos e similares. É quando, neste meio imperscrutável para a maioria, sente-se em casa afinal. E é quando se percebe apto a esmerar deveras um texto, atentando-se aos detalhes, consciente do poder imenso das palavras, de que, às vezes, uma delas é suficiente para mudar tudo num discurso ou numa narrativa. Toda habilidade difícil, dominada a duras penas, costuma outorgar este prêmio: a dificuldade passa a deleitar. Mas há habilidades cuja dificuldade possui um claro limite; nas letras, não parece havê-lo.
Se um autor pensar um bocado…
Se um autor pensar um bocado, descobrirá que possui, sempre, algo a ensinar a alguém. E se, em vez de seguir a irresistível tendência de imitar o que outros fizeram, centrar-se em ensinar, na medida de suas possibilidades, mas com sinceridade e pureza de intenção, aquilo que sabe àquele que não o sabe, terá, seguramente, ao menos um bom leitor. Mas acontece que, fazendo isso, descobre que sabe mais do que supunha, aprende mais do que antes sabia e consegue, de uma só vez, evoluir e criar algo de valor.
A ironia é uma delícia
A ironia é uma delícia. Irresistível, às vezes. E para alguns temperamentos, essencial. Mas é difícil não enxergar para onde tende, ou melhor, é difícil não enxergar os efeitos de sua prática regular prolongada na personalidade do praticante. Para entendê-lo, basta investigar de onde brota sua motivação. Há ironias que, em suma, edificam; outras degeneram. E tal se percebe não pelas reações que suscitam, mas pelo sentimento que o ironista alimenta dentro de si. Sentar-se sempre à mesa, centrar a vida na crítica mordaz é algo que só se deveria fazer com um objetivo construtivo e purificador.