O segredo de muitos escritores consiste em amplificar…

O segredo de muitos escritores consiste em amplificar, exagerar uns poucos traços que, em suas personalidades, já se mostram naturalmente salientes. Para fazê-lo, porém, é preciso vencer aquele receio inicial do que os leitores poderiam pensar. O curioso é que, quase sempre, são estes receios infundados, e o exagero cristaliza-se em estilo, torna-se o maior indicativo da verve individual. Vemos o efeito, e então o comparamos com os exemplos contrários, daqueles escritores que aparam as próprias saliências, como se buscassem parecer mais “normais”. Parece que a aceitação almejada não se alcança, e afinal suas obras causam uma má impressão. No confronto direto, em última instância, o público sempre prefere os loucos aos sem graça.

Algo muito impressionante na técnica…

Algo muito impressionante na técnica, na arte, no estudo, e mesmo na personalidade, é notar um padrão de desenvolvimento frequente, no qual se observa um avanço lento, mais ou menos regular, que se arrasta por anos a fio. Então, quando se parece estabelecer uma constante, ocorre um salto, e o patamar atingido parece incompatível com o processo anterior. Vêm à mente os gráficos de Taleb. Como explicar que sejam tão frequentes? O esforço contínuo parece necessário, mas não pode conter em si mesmo a explicação. A história, contudo, se repete, e ainda que não seja compreendida, faz bem que seja admirada e tomada como inspiração.

A literatura, impossibilitada como se tornou…

A literatura, impossibilitada como se tornou de ser profissão, só pode hoje gerar uns tipos inadaptados e anormais. Porque, afinal, praticá-la é não menos que trabalhar sem expectativa de retorno, algo que ninguém conscientemente faz. Assim, o escritor como que destaca uma parte de seu tempo da “vida normal”, e quanto maior essa parte, quanto mais for autenticamente escritor, mais se afastará da norma, mais se concretizará anormal. Não há solução. E se é quase incontornável a tendência de que fracasse em levar uma vida comum, ao menos tornou-se mais fácil verificar a sinceridade de sua vocação.

O ato que une escritores e os diferencia…

O ato que une escritores e os diferencia das pessoas comuns é sentar-se para escrever. Sentar-se, isolando a mente, envolvendo-a de um silêncio que só consente com a manifestação da voz interior. E, então, concretizá-la no papel. Este ato, simultaneamente criativo e organizador, se para alguns serve de terapia, para todos serve de norte, e uma vez que a ele o cérebro se acostume, abster-se-lhe é quase sempre cair em desorientação.