Ao escritor que alimenta internamente…

Ao escritor que alimenta internamente o sonho da glória literária, deve ser muito difícil suportar o status miserável proporcionado pela literatura, caso não haja condições bem diversas que lhe confiram algum prestígio social. Decerto, o mais provável é que algo muito diferente da “glória” terá de experimentar. Talvez seja necessário algum talento para lidar com a condição de medíocre aos olhos de todos, ao mesmo tempo que se percebe que medíocres são, em verdade, todos os outros. É o caso de Lima Barreto, a quem parece ter faltado semelhante talento, embora não tenha faltado a percepção agudíssima do fenômeno. A verdade é que não há humilhação nem injustiça neste desprezo, e é bom que o escritor aprenda a manejar, e até se divertir com o constrangimento, para evitar ludibriar-se com os pareceres de um falso juiz.

O segredo de muitos escritores consiste em amplificar…

O segredo de muitos escritores consiste em amplificar, exagerar uns poucos traços que, em suas personalidades, já se mostram naturalmente salientes. Para fazê-lo, porém, é preciso vencer aquele receio inicial do que os leitores poderiam pensar. O curioso é que, quase sempre, são estes receios infundados, e o exagero cristaliza-se em estilo, torna-se o maior indicativo da verve individual. Vemos o efeito, e então o comparamos com os exemplos contrários, daqueles escritores que aparam as próprias saliências, como se buscassem parecer mais “normais”. Parece que a aceitação almejada não se alcança, e afinal suas obras causam uma má impressão. No confronto direto, em última instância, o público sempre prefere os loucos aos sem graça.

Algo muito impressionante na técnica…

Algo muito impressionante na técnica, na arte, no estudo, e mesmo na personalidade, é notar um padrão de desenvolvimento frequente, no qual se observa um avanço lento, mais ou menos regular, que se arrasta por anos a fio. Então, quando se parece estabelecer uma constante, ocorre um salto, e o patamar atingido parece incompatível com o processo anterior. Vêm à mente os gráficos de Taleb. Como explicar que sejam tão frequentes? O esforço contínuo parece necessário, mas não pode conter em si mesmo a explicação. A história, contudo, se repete, e ainda que não seja compreendida, faz bem que seja admirada e tomada como inspiração.

A literatura, impossibilitada como se tornou…

A literatura, impossibilitada como se tornou de ser profissão, só pode hoje gerar uns tipos inadaptados e anormais. Porque, afinal, praticá-la é não menos que trabalhar sem expectativa de retorno, algo que ninguém conscientemente faz. Assim, o escritor como que destaca uma parte de seu tempo da “vida normal”, e quanto maior essa parte, quanto mais for autenticamente escritor, mais se afastará da norma, mais se concretizará anormal. Não há solução. E se é quase incontornável a tendência de que fracasse em levar uma vida comum, ao menos tornou-se mais fácil verificar a sinceridade de sua vocação.