Um dos dilemas enfrentados pelo romancista…

Um dos dilemas enfrentados pelo romancista moderno decorre da consciência de que, em muitos aspectos, o cotidiano atual seria incompreensível para homens do passado. Quando lemos, hoje, histórias de quinhentos, oitocentos anos, compreendemos sem muita dificuldade os afazeres, os costumes, as sociedades de então, ainda que os contrastes sejam evidentes. Plantar, colher, celebrar, navegar, pescar, fermentar, tecer, cavalgar, rezar, construir, casar, pintar, jogar… tudo isso é muito antigo e muito atual, possibilitando cenas inúmeras e livros inteiros cujo sentido jamais se perderá. Já afazeres modernos, como “navegar na internet” ou simplesmente operar um computador, algo em que se faz uma carreira, gasta-se uma vida, certamente não possuem a mesma qualidade atemporal. O romancista, mirando-os, isto é, mirando parte considerável do material de seu tempo, tem de se decidir o quanto os aproveita, e embora saiba que ocultá-los talvez seja falsificar-se, experimenta a impressão de que, se incompreensível aos grandes homens de outros tempos, sua história provavelmente não terá valor.

Um dos piores erros que o escritor pode cometer…

Um dos piores erros que o escritor pode cometer é produzir com o intento de integrar-se em algum grupo. O resultado, quase sempre, é o sacrifício daquilo que de mais valioso poderia expressar. Assim que mentes talentosas, promissoras, pulsantes de autêntica motivação artística, largam mão de tudo isso por algo que, se bem resumido, não é senão o velho desejo de aceitação. O problema maior é que, pelo prêmio de ser aceito, julga a mente conveniente pagar o preço de agradar; porém, em arte, quando se tenta agradar, não se agrada, e certamente se corrompe.

Não se fará, e nem faria sentido que se fizesse…

Não se fará, e nem faria sentido que se fizesse uma nova Divina comédia, embora justamente possa ela ser considerada o modelo supremo de realização artística nas letras. Neste sentido, é forçoso admitir: a mudança do tempo exige uma arte que a represente. Contudo, o haver ali condensada toda a cultura de uma época, que se harmoniza com a manifestação de uma consciência individualíssima a qual, embora nela se movimente e por ela se expresse, consegue ao mesmo tempo pintá-la e julgá-la, é lição que o artista moderno faz muito bem em assimilar. O tempo presente é, e sempre será, uma oportunidade única. O novo é necessário, mas não sairá valioso se não fundado numa velha e imorredoura compreensão.

Uma nova orientação surge quando o escritor…

Uma nova orientação surge quando o escritor percebe e assume a herança intelectual da qual é beneficiário, e que através de sua obra tem de se manifestar. Ainda que não percebê-la seja difícil, assumi-la exige deliberação. Somente assim, integrando-se numa tradição que o precede, o escritor obtém a tranquilidade e a certeza de trabalhar em algo que o ultrapassará. Ao escritor moderno, nada pode fazer tão bem quanto inverter a tendência egoísta e vaidosa, encher-se de humildade e conscientemente dedicar a vida a dar continuidade a algo que já começou.