Deixar-se envolver na teia de afazeres e responsabilidades da vida mundana praticamente sela, pelo tempo que este estado perdura, a possibilidade de que a mente perceba o quanto se está a desperdiçar. Só poderá percebê-lo depois, com sorte, quando o desperdício já estiver consumado. O positivo da situação é que o aprendizado costuma demandar o erro experimentado em ato pessoal; quer dizer: primeiro o deslize, depois a lição. Sem desperdiçar-se temporariamente, a mente não assimila as consequências concretas de fazê-lo. Mas ocorre que, após certo ponto, o que havia de instrutivo ou foi assimilado, ou se provou inócuo, e a mente ou decidiu transformar-se, ou aceitou encerrar-se num ciclo interminável de repetições.
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É realmente louvável o esforço de Unamuno…
É realmente louvável o esforço de Unamuno para tentar verbalizar o sentimento que experimenta, talvez descoberto apenas depois de um olhar atento para dentro de si mesmo, de haver uma força indescritível sempre presente nos momentos determinantes de sua vida, nos quais foi preciso decidir. Notá-lo não é tarefa simples, e às vezes só é possível quando o tempo passa, e se desenham no passado os efeitos irreversíveis da decisão. Ainda mais difícil é admiti-lo, posto que as evidências se concentram no nebuloso campo da subjetividade, que rejeita a possibilidade de uma compreensão límpida e racional. O mais duro, contudo, é tentar expressá-lo: as palavras parecem insuficientes, nunca correspondendo ao sentimento real. Fazê-lo é, necessariamente, expor-se ao ridículo; é dizer para ter, em seguida, vontade de desdizer. De tudo quanto se pode dizer sobre este Del sentimiento trágico de la vida, o mais importante é o seguinte: este livro é uma demonstração de coragem.
“O tempo passou”
Nem todos tem a sorte de experimentar nesta vida a pedagógica sensação de que “o tempo passou”. Esta, variável nas circunstâncias, costuma apontar as consequências de se ter postergado uma decisão. Contudo, há vezes em que vem demonstrando, de maneira muito clara, que efetivamente se decidiu. Isso se dá com aqueles que, depois de certa idade, observam os velhos conhecidos, alguns dos quais, até ontem, eram próximos, e percebem que todos eles tomaram um caminho, aceitaram o que a vida lhes oferecia, fizeram escolhas, prolongaram a obra de seus pais. São poucos os que podem experimentá-lo, pois são justamente os que não agiram conforme o esperado, transgredindo o curso natural da vida, rompendo com o padrão. Então, “o tempo passou”: já não se pode voltar atrás, nem integrar-se novamente no costume; decidiu-se sem o perceber. E quão rápido se dá tudo isso! Agora, tudo fica muito claro, e o afortunado que o experimenta pode, enfim, assumir para sempre a sua decisão.
O sofrimento é muito bem distribuído
É preciso ter compaixão porque, como diz o budismo, o sofrimento é muito bem distribuído, e quase nunca se conhece aquilo que motiva a ação. Julga-se por automatismo, e raramente se reflete na aptidão ao julgamento, a qual inexiste quando fundamentada em meras convenções. O homem não é nada. Beneficia a si mesmo, e não ao próximo, quando tenta compreender. E quando não compreende, alguma cosia pode ganhar tendo pena; nenhuma com a condenação.