“Sou filósofo; faço filosofia”

“Sou filósofo; faço filosofia” — diz o construtor de castelos imaginários, tal como diz aquele que brinca de criar, ordenar e adulterar palavras: “Sou escritor; faço literatura”. E embora ambos, talvez, sintam-se justificados pelo atributo que o ofício lhes confere, a verdade é que nada daquilo que produzem possui sentido existencial. Notá-lo parece bobagem, mas os anos passam e a vida pressiona por uma verdadeira justificação. O filósofo, o escritor, não podem encontrá-la no passado, por terem-no dedicado a motivações exteriores, descoladas de si. Então se arrependem; porventura ainda com tempo para redimi-lo, mas já tendo deixado a influência e o exemplo prejudiciais.

Algumas ideias, é preciso tê-las para depois…

Algumas ideias, é preciso tê-las para depois entendê-las, vivê-las para, enfim, saber de onde vêm. Por isso, se o primeiro contato com elas se dá pelo papel, haverá desentendimento. Quando, porém, dá-se o contrário, é curioso notar que uma ideia, mesmo que já concebida, já experimentada em primeira pessoa, pode ficar como oculta na mente, sem manifestar-se, e como se ainda não tivesse sido devidamente assimilada. Ocorre, então, o contato com sua exposição escrita, precisa e detalhada. A mente se ilumina; capta o sentido e a motivação. E percebe que, sem a experiência prévia, jamais poderia compreendê-la.

Apesar de já terem-no dito muitas e muitas vezes…

Apesar de já terem-no dito muitas e muitas vezes, é preciso repisar a mesma verdade, sabendo que ela continuará ignorada pela maioria: a intuição precede, e independe de sua expressão verbal. É preciso dizê-lo sempre porque sempre se encontram exemplos daquele que sabe, mas não consegue explicar o que sabe; e não saber explicá-lo, ou não conseguir explicá-lo de forma satisfatória, não quer dizer que não saiba. Em verdade, muitas vezes o problema está menos na explicação do que no interlocutor. Mas é indiferente: percebe-o apenas aquele que, ao menos uma vez na vida, obteve uma compreensão súbita de qualquer coisa, uma compreensão instantânea e confiável, que permitiu julgar e decidir com acerto, mas cujas bases escaparam à racionalização. Quem nunca a experimentou, ou não reparou experimentá-la, faz bem tendo ciência desta possibilidade, para que não erre tomando o conhecimento pela capacidade de explicar.

Os velórios ensinam que o sucesso morre…

Os velórios ensinam que o sucesso morre antes da memória, e que, mesmo em vida, são muito diferentes os graus de satisfação que se pode obter. Num velório, diante da carne exaurida, revelam-se ainda vivas as marcas deixadas pelo falecido na mente de quem o conheceu. E se percebe, havendo velórios distintos, haver o cultivo, e o desfrute, de distintos bens. A morte apenas escancara o gratificante que houve, se duradouro ou perecível, se egoísta ou compartilhado, se as marcas deixadas foram boas ou foram más. O falecido, como diz o verso de Mallarmé, converte-se no que é; e é por esta forma final que se pode avaliar o sucesso e a validade da convergência simultânea de tudo aquilo que se passou a vida a colecionar.