Através da aparência fenomênica dos livros de Kant, aprende-se que só é possível ter uma opinião sobre a aparência fenomênica de Kant, uma vez que o Kant em si não pode ser conhecido. Igualmente, a filosofia de Kant não pode ter senão sua aparência fenomênica apreendida, tal como um cachorro, uma geladeira ou uma equação. Agora, acontece o seguinte: a partir do momento em que se aceita esse preceito, tudo se justifica, salvo o estudo e, finalmente, a vida. É incrível como tenha podido haver exércitos de kantianos que viveram como homens comuns, isto é, que aceitaram essa fantasmagoria e permitiram-se uma morte natural. Em verdade, para isso só parece haver uma explicação, um tanto desabonadora para a filosofia de Kant.
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O sofrimento é a experiência humana por excelência
Por mais que se queira evitá-lo, o sofrimento é a experiência humana por excelência, que universaliza as palavras de Buda a Jesus Cristo, a música de Beethoven e os poemas de Camões. Não se é humano sem ele; sentir é sofrer. No fim das contas, a reflexão acaba demonstrando-lhe o valor. E disso brota algo bom, como já dito pelo enorme e irretocável Louis Lavelle. Graças ao sofrimento, somos compreensíveis e podemos compreender.
Deixar-se envolver na teia de afazeres…
Deixar-se envolver na teia de afazeres e responsabilidades da vida mundana praticamente sela, pelo tempo que este estado perdura, a possibilidade de que a mente perceba o quanto se está a desperdiçar. Só poderá percebê-lo depois, com sorte, quando o desperdício já estiver consumado. O positivo da situação é que o aprendizado costuma demandar o erro experimentado em ato pessoal; quer dizer: primeiro o deslize, depois a lição. Sem desperdiçar-se temporariamente, a mente não assimila as consequências concretas de fazê-lo. Mas ocorre que, após certo ponto, o que havia de instrutivo ou foi assimilado, ou se provou inócuo, e a mente ou decidiu transformar-se, ou aceitou encerrar-se num ciclo interminável de repetições.
É realmente louvável o esforço de Unamuno…
É realmente louvável o esforço de Unamuno para tentar verbalizar o sentimento que experimenta, talvez descoberto apenas depois de um olhar atento para dentro de si mesmo, de haver uma força indescritível sempre presente nos momentos determinantes de sua vida, nos quais foi preciso decidir. Notá-lo não é tarefa simples, e às vezes só é possível quando o tempo passa, e se desenham no passado os efeitos irreversíveis da decisão. Ainda mais difícil é admiti-lo, posto que as evidências se concentram no nebuloso campo da subjetividade, que rejeita a possibilidade de uma compreensão límpida e racional. O mais duro, contudo, é tentar expressá-lo: as palavras parecem insuficientes, nunca correspondendo ao sentimento real. Fazê-lo é, necessariamente, expor-se ao ridículo; é dizer para ter, em seguida, vontade de desdizer. De tudo quanto se pode dizer sobre este Del sentimiento trágico de la vida, o mais importante é o seguinte: este livro é uma demonstração de coragem.