O sujeito gosta de café. Por anos…

O sujeito gosta de café. Por anos, por uma vida inteira, toma-o todas as manhãs e sente prazer. Agrada-o o golpe quente na língua, o sabor que permanece na boca, o estímulo mental evidente, do qual depende para trabalhar. Crê-se apreciador da bebida, como crê nos efeitos benéficos reais que ela traz ao seu cotidiano. Em suma: o café o deixa feliz. Então chega o dia em que prova um café de qualidade superior, que lhe deixa o paladar extasiado. Quando retorna ao velho café que bebia, percebe claramente tratar-se de lixo. Investiga a respeito e descobre tratar-se de lixo deveras, no qual o café real, mas em grãos de pior qualidade, é misturado às impurezas mais variadas, entre elas algumas inomináveis, e o todo é torrado além da conta para que lhe sejam mascarados os defeitos. Deste dia em diante, o mesmo café, a bebida tão apreciada que lhe deu prazer por toda a vida, nunca mais o satisfará. E a filosofia, como o faz sempre, escancara a pergunta: vale a pena o conhecimento?

As artes visuais possuem uma especial…

As artes visuais possuem uma especial capacidade de choque — instantâneo, inesperado — que, logo ao primeiro contato, pode produzir uma lembrança que jamais deixará a memória. É, por exemplo, o que pode acontecer com o sujeito que se coloca, pela primeira vez, diante de uma escultura de Aleijadinho. No momento em que os olhos se fixam na obra e lhe captam a dramaticidade, é como se esta os penetrasse como um raio; há um susto, e tal instante de perplexidade se grava para sempre na mente. Depois, é admirar os detalhes, refletir sobre a realização impossível; mas, dali em diante, é do abalo súbito que a mente primeiro se recordará sempre que evocar o nome do gênio criador.

A velhice parece recomendar a serenidade

A velhice parece recomendar a serenidade tal como a juventude recomenda a paixão. Contudo, o jovem que contraria o natural da juventude parece-nos superior a ela, enquanto o idoso, se faz o mesmo, parece-nos desajustado à idade que tem. É estranho porque os casos abundam em que o conflito como que se entranha na natureza do indivíduo, de forma que abandoná-lo, para ele, seria morrer. Então acompanhamos aqueles que, de cabeça branca, se conservam aguerridos, apaixonados, sempre envolvidos em alguma contenda. Seguramente, não serão homens a julgá-los; mas parece a velhice ser mais autêntica quando cultiva e irradia paz.

É injustificável a razão apontar o exemplo

É injustificável a razão apontar o exemplo, saber positivamente invejá-lo, reconhecer o desejo de reproduzi-lo, e, ainda assim, nada fazer para alcançá-lo, desistindo antes de tentar. Ora, se há algo certo é que o mérito frequentemente é imperceptível para aquele que o possui; isto é, o sujeito o cultiva, o aprimora, perseverando enquanto crê sinceramente não estar fazendo nada de mais. Mas o principal é o seguinte: este mesmo sujeito sabe não possuir o mérito supremo, conhece exemplos melhores que o seu. Assim, pode ser humilde e avançar com tranquilidade e despretensão. Se quisesse tudo logo de cara, acabaria de mãos vazias; mas, com a disposição adequada, acaba criando algo de valor. E assim o exemplo é duplamente útil: para servir de modelo, e para demonstrar que é sobretudo estúpida essa coisa de querer ser sempre o melhor.