A meta invisível

De Stefan Zweig:

Mas só nos primeiros anos da juventude o acaso ainda parecia idêntico ao destino. Mais tarde sabemos que a verdadeira trajetória da vida é determinada por uma força interior: por mais que o nosso caminho pareça se desviar sem sentido dos nossos desejos, sempre afinal nos conduz à nossa meta invisível.

Não há como negá-lo, e como não há como negar que a tal meta é sempre existente, embora não necessariamente invisível. O que alcançam as mentes mais desenvolvidas é defini-la, ou apreendê-la, e conscientemente agir em conformidade com ela. Porém, há sempre aquela discrepância oriunda da imperfeição humana que faz com que os atos nem sempre estejam em harmonia com aquilo que se quer. O resultado é que a meta definida altera-se um pouco na realidade, isto é, a trajetória se ajusta segundo as ações reais. Exatamente por isso, mesmo para aqueles que o ignoram por completo, a meta invisível se cria e se desenvolve orientada pelo desejo que se manifesta nas ações.

Os problemas mais irritantes são aqueles…

Os problemas mais irritantes são aqueles cuja compreensão é insuficiente para solucioná-los. São aqueles com os quais se tem de lidar por um período prolongado, e mesmo que o seu mecanismo seja perfeitamente compreensível, mesmo que sua solução seja claríssima, não se pode vencê-los por não se possuir os meios para tal. Daí que cada aparição opera como que uma martelada na mente, uma martelada dolorosa, exasperante, que tem de ser absorvida em silêncio, visto que a reação é inútil e só aumenta a irritação. O pior de tais problemas é parecerem injustificáveis no momento seguinte à sua compreensão; quer dizer, o que tinha de ensinar, já ensinaram; mas mesmo assim, por birra, eles insistem em não desaparecer.

É difícil mensurar o quão útil pode ser…

É difícil mensurar o quão útil pode ser o domínio de ao menos um destes grandes sistemas simbólicos, de forma que o raciocínio tenda naturalmente a encontrar vínculos entre a realidade e a miríade de interpretações simbólicas tradicionais. Tais correspondências nunca se esgotam, e aprofundam muito a compreensão da realidade. Um evento simples, pois, adquire para a mente um sentido mais amplo. E ganha-se mesmo quando não se está conscientemente o tentando interpretar, posto que a mente assim treinada se inclinará sempre a ultrapassar a camada de significado superficial.

De início, é descobrir-se agente…

De início, é descobrir-se agente, é levar ao limite as próprias capacidades, até que se possa senti-las esgotadas, insuficientes. Então, é reconhecer a impossibilidade de apoiar-se tão somente nelas, e a necessidade de amparo maior. Tal amparo é possível! Mas o homem, para percebê-lo, costuma ter de, primeiro, fracassar. É quando o mundo desaba, é quando o esforço parece inútil e o anseio impossível que o homem se capacita a perceber quão erroneamente é capaz de julgar.