Uma vida paralela

O artista do século XXI ou, antes, o sequioso da alta cultura necessita de uma espécie de vida paralela, de um destacamento do meio para que, sozinho, possa caminhar. A alta cultura repele a vida cotidiana moderna, o meio lhe é nocivo, hostil, e não há nada que se possa fazer para absorvê-la senão trancar-se em isolamento. Do contrário, é contaminar-se e perder a capacidade de distinção, apodrecendo como o fez a própria cultura. Se, de um lado, tamanho contraste pode evidenciar uma perda gradativa do papel, ou talvez da influência da alta cultura na sociedade, doutro, a nível individual, restam facílimas as decisões.

Antagonistas naturais

De um lado, a filosofia da unidade; doutro, a filosofia do acaso. Incompatíveis, antagonistas. E ambas encontram, é verdade, vistosa fundamentação. Privadas, contudo, da certeza, da prova cabal que anularia a argumentação contrária, digladiam-se inutilmente. Como notou Pascal, parece haver no mundo o suficiente para que qualquer um enxergue o que quiser. Dessa forma, a postura filosófica fundamental parece resumir-se no apego ou desapego à incerteza, no apreço aos sinais que podem satisfazer ou não; em suma, na reação do espírito ante o conhecimento adquirido.

Felizes os que não carecem do juízo

Refletir conduz ao juízo e o juízo é insuportável! A mente vê brilhar como nada o pior e aponta, implacável, o veredito. Felizes os que não carecem de passar a régua em todas as linhas, fazer moralismo até em piadas, levando as reflexões às últimas consequências. A existência perde o peso quando se é capaz de calar, cegar, distrair o racional e simplesmente deixar que a vida corra. Aos demais, solidariedade…

Dia e noite…

Em pensamentos, o movimento último e extremo não executado em vida. E as consequências, todas elas afligindo e pulsando tão logo a cabeça pouse e os olhos fechem. A necessidade de aniquilar, jamais se esquecendo de uma única palavra, levando a cabo todos os impulsos violentos controlados pelo racional manifestando-se, todas as noites, enquanto reina o silêncio no exterior. Em vida, em arte, o esforço por abrandá-los, o esforço por lhes mascarar o caráter monstruoso, o esforço pelo predomínio da consciência. E assim a mente submerge em dupla vida.