Nacionalismo e estupidez

Poucas ideias parecem-me tão estúpidas quanto o nacionalismo. Não fecho a frase e a mente aponta-me a objeção: Dostoiévski, Hugo, Cervantes… Rejeito. O que esses e muitos outros “patriotas” fizeram extrapola as limitadas fronteiras de onde viveram: a arte que engendraram é expressão de valor universal. Seria acintoso resumi-los a “nacionalistas”. O nacionalismo é uma das muitas portas à estupidez, o patriota ordinário é um ignorante pretensioso que limita, sempre, o próprio intelecto, graças a esse sentimento desprezível que Cioran, repetidas vezes, chamou de péché contre l’esprit. Cioran: exemplo de coragem e liberdade de espírito; um homem sem pátria; alguém que tomou ciência, na prática, de que não dista um milímetro do orgulho nacional à mais abjeta idolatria.

Contrariar o conveniente

Quando o grosso da rotina escorre, dia após dia, em questões de ordem prática, em atividades banalíssimas que se impõem sobre todas as outras, é muito difícil se não colocar a maldizer a existência. A solução mais simples: impedir que o intelecto se manifeste, calar a mente, nunca deixá-la expandir. Sendo tarde, quer dizer? buscar prazer na vida prática? arrumar esposa? filhos? Talvez… Do contrário, é reagir em contraposição ao imperativo da necessidade e, sofrendo as consequências do desdém para com o conveniente, encontrar satisfação no ato voluntário de revolta. Não há o que maldizer… há?

A aparência de monotonia mescla-se a transformações visíveis

O excepcional deste mundo é que a aparência de monotonia mescla-se a transformações visíveis e radicais. A impossibilidade do absoluto, conquanto evidente, camufla-se na falsa morosidade do tempo. A percepção vê-se, sempre, envolta num dilema: incapaz de formular projeções razoáveis, de interpretar precisamente a realidade, ainda assim carece do juízo e opta pelo erro. Tudo em movimento, tudo suscetível a golpes abruptos intempestivamente: a saúde a um triz da doença, a carência da abundância, a apatia da agitação. E o futuro, estranho à lógica, jamais deixando de ceder palco à contingência.

A gratidão é um exercício nobre

Lembro-me do dia em que decidi iniciar estas notas. Como todas as decisões importantes, essa veio-me como uma rajada, tomando-me a mente e forçando a ação imediata. No instante seguinte, a reflexão sobre o que escrever. O consenso: começar pelos agradecimentos. Então escrevi sobre Nelson, Dostoiévski, Swift, Pondé e alguns outros, e não tardou uma semana da decisão à publicação das primeiras notas. Pois bem. Ao iniciado, não vejo postura razoável que não seja a de humildade; é necessário prestar contas àqueles que contribuíram, de alguma forma, à sua iniciação. A gratidão é um exercício nobre e proveitoso, o reconhecimento é uma exigência do caráter. Digo isso para concluir: a faculdade do agradecimento parece-me um belo parâmetro para distinguir aquele que, por esforço voluntário, empenha-se para ser maior do que a própria vaidade.