O único e a sua propriedade, de Max Stirner

Obra brilhante. Manifesto em prol da inteligência e da dignidade. Antídoto contra a tirania das abstrações. Quanto prazer! E houve quem quis pintar Stirner pejorativamente como “radical”… Muito bem! Radical contra a submissão do indivíduo perante as ideias, revolto contra a repressão do pensamento. E, ademais, muitíssimo bem-humorado, o que se não verifica em todos aqueles que se indignaram contra as blasfêmias desse grande intelectual. O ser humano padece dessa terrível necessidade de, primeiro, associar-se, tornar-se parte de um grupo, formular e validar crenças através de um consenso e, em seguida, impô-las ao restante da espécie, reivindicando a validação universal. Natural que o indivíduo tenha sempre existido, no senso comum, como submisso a qualquer autoridade. O contrário é simplesmente impensável! É preciso ser uma ovelha e exigir que todos os demais também o sejam; assim penso, assim faço, e é exatamente assim que todos devem pensar e fazer! Mas aí está o que os animais de rebanho jamais compreenderão: a dignidade começa com a consciência da individualidade e a maturidade com a aceitação do mundo como ele é. A espécie já fracassou, mas o riso de Stirner continuará ecoando pelos séculos dos séculos…

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O mito de Sísifo, de Albert Camus

O ontem que se repete metodicamente, o esforço diário e o tempo, longo tempo… Então irrompe na mente fatigada: “Por quê?” — subitamente, o ser percebe-se diante de uma encruzilhada: ou neutraliza imediatamente a manifestação do espanto e torna à costumeira letargia, ou terá de defrontar a questão que atropela todas as outras. Se a vida não é justificável, se o esforço diário é inútil, se a morte é condenação peremptória, a razão exige o suicídio. Há saída? Como encontrar solução diferente? Absurdo! A mente demanda resposta de um ente mudo, quer assimilar o ilógico pela razão, recusa-se a admitir a própria impotência. Mas precisa de uma resposta para existir. E se não é capaz de calar-se e simplesmente aceitar a realidade imponente, vê-se forçada a encarar ativamente a própria sina. Imprescindível o suicídio? a supressão imediata da dor e do esforço é a decisão mais sensata? Não, diz Camus, há a revolta.

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A compreensão da natureza humana exige o distanciamento da razão

A compreensão da natureza humana exige, repetidas vezes, o distanciamento da razão. Negar as manifestações irracionais do ser humano e dos fenômenos externos implica, ademais de arrogância, a limitação do próprio entendimento. A razão, o método experimental, ambos apresentam-se limitados enquanto ferramentas da apreensão da realidade. Reconhecê-lo é simplesmente estar de olhos abertos. O conhecimento exige humildade, reconhecimento das próprias fraquezas, coragem para enveredar por território estranho. Jung, ciente das possibilidades da razão, — e, sobretudo, ciente de sua força, — buscou no estudo das religiões, da mitologia e da magia medieval as respostas que seu método analítico jamais seria capaz de entregar, por excederem-lhe o escopo. Tornou-se talvez o psicólogo mais brilhante de todos os tempos. Para muitos, porém, desertor. E permanecem os muitos em sua estupidez prepotente e monumental.

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A multidão é essencialmente covarde

Sempre que me deparo com a agressão em massa contra um indivíduo noto, em primeira instância, a desigualdade do combate. Foi-se o tempo dos duelos; foi-se a noção de que a honra, mesmo aviltada, exige o combate leal. A multidão é essencialmente covarde por valer-se da opressão numérica. Constato que, ainda que o indivíduo tenha feito qualquer coisa de condenável, eu jamais serei capaz de urrar vendo-lhe a cabeça a rolar. Rechaço, sempre e obrigatoriamente, o berro repugnante da multidão. Nunca estarei ao lado da turba impessoalizada, do somatório de covardes que se escondem sob a máscara de uma “causa comum” para agredir.

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