A ausência de uma concepção mais nobre

Penso no grosso da literatura do século XX. O ser humano é um animal multifacetado, ambíguo, sujeito a manifestações diversas e contraditórias. Nele, o selvagem mistura-se ao sublime em proporções variáveis — e, geralmente, desbalanceadas. Um autor, pois, não erra quando o retrata como escravo do desejo, fantoche da vontade. E acerta em cheio quando explora a irracionalidade e o avesso à moral. Entretanto, uma pausa. Há no homem a manifestação do belo, e amputada é a obra que se exima de explorá-la. Dar vida ao espécime humano mais arcaico e animalesco é tarefa, digamos, menos difícil que ousar penetrar a mente do modelo que se eleva acima do banal. Por isso, o autor será menor caso fuja da tarefa de conceber o raro. Onde está o nobre? Inexistente? É o que parece dizer grande parte da literatura incapaz de engendrá-lo ainda que, como Swift, sob a forma de cavalos…

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Um animal inadaptado [2]

Forçado a esperar numa fila, sem nada para ler, aproveito o momento em divertida atividade: arriscar uma lista das coisas que mais detesto. Vamos lá: (1) dissimulação, (2) burocracia, (3) demagogismo, (4) grupos de pessoas, (5) marketing, (6) expansividade, (7) ruído de vozes humanas, (8) conversação fútil… Listo e tenho uma ideia. O sorriso é imediato. Novamente, percebo-me um animal inadaptado. Considero, talvez, que minha existência seja um enigma evolucionista. Possuo incontáveis manifestações contrárias ao meio, de forma que arrisco minha própria natureza ser o retrato da inadaptação. Em mim, o intro e o extra relacionam-se em hostilidade, repelem-se de forma total sem que haja qualquer conciliação possível. Nego, recuso-me deliberadamente a integrar o meio, ainda que falhe e seja perseguido de forma insuportável. Lembro-me das palavras de Thoreau: “Wherever a man goes, men will pursue and paw him with their dirty institutions, and, if they can, constrain him to belong to their desperate odd-fellow society”. Oh, vida irritante! convenções insuportáveis! falatório estúpido!… Adeus, nota, até você causa-me fastio.

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É incrível como a necessidade de dinheiro piora a existência

É incrível como a necessidade de dinheiro piora a existência. Forçada, a maioria tem-na como natural, mas a verdade é que é escrava sem sabê-lo. Naturalmente, alguns não partilham da mesma sorte. E que peso não carregam nas costas! Saber-se necessitado do dinheiro induz a uma tortura psicológica interminável. “Por quanto tempo? Quando me libertarei?” E pior quando a carência abocanha-lhe o grosso da rotina, que é o caso mais comum. Muitos não percebem, anestesiados. Mas viver a cumprir um contrato, a ter obrigações para honrar, a fazer religiosamente o que jamais faria se não precisasse… isso, por acaso, é vida?

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Há uma muralha entre o pensamento independente e o pensamento popular

Há uma muralha entre o pensamento independente e o pensamento popular que faz com que, quase sempre, haja repugnância entre eles. O interesse das massas é, por definição, contrário ao interesse individual. Isso quer dizer que endossar o discurso popular é ser contrário a si mesmo, é ver a própria singularidade diluída, é ser, em suma, um ninguém. E, naturalmente, o ninguém inveja o dissidente, o detentor da coragem que lhe falta, por isso “o prego que se destaca é martelado”. O covarde alegra-se da aprovação que angaria com a própria covardia, sente-se aceito e seguro. Por outro lado, carece de uma lápide para que não lhe esqueçam o nome… Não faz mal. Os amigos jamais lhe deixarão faltar a lápide.

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