Riqueza e liberdade

Tornou-se moda diferenciar sinônimos a fim de adequá-los a ideologias e vender qualquer sorte de conselho. Os exemplos são inúmeros: “solidão” e “solitude”, “objetivo” e “meta” e muitos outros. Recentemente, deparei-me com um sujeito a diferenciar “rich” de “wealthy”. Segundo ele, rich people são pessoas com muito dinheiro, enquanto wealthy people são pessoas com muita liberdade. O raciocínio é o seguinte: a verdadeira riqueza (que pode ser traduzida tanto como richness quanto como wealth) está, em verdade, associada à liberdade, à disposição de recursos que permitam a desobrigação do trabalho, que abram possibilidades, que não exijam alto custo de manutenção, que produzam um fluxo de caixa altamente positivo. Naturalmente, em seguida o cidadão pretendeu ensinar como ser wealthy. Mas fiquemos com a ideia: riqueza e liberdade, dinheiro e desobrigação. O sujeito tem razão no que diz. Há uma falsa ideia, amplamente disseminada em todo o planeta, de que sucesso é majoritariamente atrelado a dinheiro, felicidade à riqueza, e valor a sucesso. Reconheço facilmente um escravo moderno: alguém constantemente preocupado, refém de inúmeras obrigações, sequioso da segurança e orgulhoso do que pode comprar. Digamos que seja milionário. É milionário, mas não larga o telefone, não pode faltar ao trabalho, não pode deixá-lo e compromete-se com variadas prestações. Tem uma casa enorme, troca de carro com frequência, consome em altíssimo padrão. Seria isso sucesso ou, antes, seria isso valor? O dinheiro só é nobre enquanto meio à liberdade, e envilece quando conduz à escravidão. Aceitando-se escravo, inconsciente da própria condição, o milionário não é senão um fantoche do dinheiro, submisso a um pedaço de papel. Entretanto, aceito-me a rendição: “valor”, hoje, assim como todas as demais palavras, parece escapar-me à compreensão…

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Violando regras

Acabo de acompanhar, encantado, um policial a trafegar na contramão, sem o cinto de segurança, e estacionar com uma das laterais sobre a calçada. Estacionou e parecia observar uma árvore do outro lado da rua. Incrível! Fantástico! E não pude conter o desejo de, eu mesmo, replicar a ação. Quero trafegar na via contrária, subir na calçada e observar uma árvore, como a verificar se ela está nos conformes. Será que o policial paga multas? Eu não quero respeitar as leis! Ah! ah! ah!… Quero estacionar, diante de uma placa, em local proibido. E ignorar o parquímetro! Inspiração, ídolo este policial… E com este sentimento inicio-me, hoje, na obra de Henry David Thoreau. Conta-me, mestre, o que aprendeste catequizando bichos na floresta? Não gosto tanto assim de animais selvagens, mas quem sabe?… Quero isolar-me, dar o cano em todos os impostos, transgredir todas as regras. Ensina-me?

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Ser pobre ou ser escravo?

Questão perversa e obrigatória a todos os que, nascidos em berço modesto, encontram-lhes os interesses inclinados a algo impopular. Pergunto: será possível uma inteligência interessar-se por algo popular? Talvez, conquanto incomum. Pois que a questão continua vibrante, imponente: ser pobre ou ser escravo? Não consigo interpretá-la senão como um confronto entre liberdade e desejo: respondê-la é decidir entre independência ou submissão. Entretanto, boas notícias: abrir as portas à pobreza não quer dizer, necessariamente, que ela se irá alojar.

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Desejo: câncer da psique humana

É possível encontrar justificativas racionais para negar as soluções propostas pelos estoicos, pelos budistas, por Schopenhauer e tantos outros. Mas há uma verdade universal, presente também na filosofia cristã, referente ao desejo: é ele a praga, o câncer da psique humana, a fonte interminável de frustrações. E se, após cuidadosa análise psicológica, decidimos arrancá-lo pela raiz, desarraigando cada uma de nossas esperanças a enxadadas, livramo-nos de uma carga imensa, maligna e prejudicial. O problema é que o ser humano vive de sonhos, suporta a realidade na esperança de um futuro melhor. Exterminá-la, pois, é fazer com que a vida perca o brilho, é dar linha à indiferença, é negar a própria natureza, é automutilação. Pois bem: parece ser esse o caminho da paz.

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