Paralelo ao sentimento de que o mundo exige…

Paralelo ao sentimento de que o mundo exige uma resposta individual às circunstâncias impostas, corre, às vezes latente, às vezes manifesta, a certeza de que o mundo, em verdade, é indiferente: nada exige e nada espera de ninguém. Daí que, em alguns, nasce um sentimento insuportável, um desamparo que redunda em inércia e desmotivação. O problema, decerto, está no mundo: está em tê-lo como árbitro, em querer tê-lo como amigo, em exigir dele recompensas. Já se vê que tudo isso brota de um desajuste interior. Ser indiferente à indiferença não basta, nem resolve nada; o que basta é ter algo estável como fundamento da motivação.

A primeira coisa que o estudante deve ter em mente…

A primeira coisa que o estudante deve ter em mente ao iniciar a investigação de qualquer assunto é: tudo quanto já se afirmou, já se refutou; tudo quanto já se elogiou, já se criticou; tudo quanto já se teve por regra, já se violou; e para cada exemplo de determinada teoria, de determinada corrente, de determinado estilo ou de determinada inclinação, é possível encontrar um exemplo contrário. Isso é fundamental para que o estudante tenha cautela, e não abra jamais um livro à espera de um ponto final. O bom aprendizado é estimulante, incita mais estudo e não menos, movimenta em vez de paralisar.

O destino de todo estudante sério é a solidão

O destino de todo estudante sério é a solidão. Se a ela não tem apreço, ou ao menos resistência, sua empresa não terá vida longa e provavelmente fracassará. Por esse motivo, muitos acabam abandonando o estudo, ainda que acreditem não fazê-lo. Chega um ponto, porém, em que a estagnação é demasiado evidente, e só prospera aquele que possui coragem para caminhar sozinho. Por um tempo, às vezes para sempre, é inevitável não ter com quem conversar. Gostar deste cenário de paz e de silêncio não é para todos; e é bom que seja assim.

É uma loucura que se tenha chegado a afirmar…

É uma loucura que se tenha chegado a afirmar, e se tenha chegado a admitir que a filosofia é ocupação para quem gosta de “argumentos abstratos”. Isso demonstra o quão corruptora é a ação das universidades. Se não houvesse mais nada, a etimologia da palavra deveria ser suficiente para refutar o disparate. Mas, em verdade, a nova definição é mesmo mais precisa para retratar a leva moderna de filósofos, muito mais afeiçoados ao argumento que ao conhecer. A prática acadêmica criou esse novo tipo, impugnando dos forasteiros as credenciais para exercer a velha ocupação. Deve ser dureza ter de levá-los a sério em troca de um pagamento mensal…