A matemática financeira tem algo de cruel

A matemática financeira tem algo de cruel. Estudando-a, verifica-se sem muita dificuldade que ela funciona, isto é, que o longo prazo realmente concretiza a teoria da multiplicação. Embora recente, ela já dispõe de dados históricos suficientes para estimar com certa segurança os resultados de diferentes cenários, incluindo aqueles impremeditados. O risco, também, já se quantifica em números um tanto confiáveis. Daí que todos esses cálculos, todas essas estimativas, toda essa maneira suficientemente segura de operar, com resultados mais que satisfatórios, fundamenta-se sempre em percentuais. O cálculo mais mirabolante, o computador mais poderoso não se consegue livrar desta imposição: uma porcentagem é sempre relativa ao principal.

Nunca é fácil visualizar o ensejo presente…

Nunca é fácil visualizar o ensejo presente e calcular quão rapidamente ele terá sido uma oportunidade que se foi. Algumas decisões maturam muito antes do que se espera, e quando se percebe, a própria hesitação já frutificou. Um intervalo de cinco míseros anos cria uma nova realidade, na qual o passado materializou-se em consequências visíveis com as quais só se pode aprender. Aprende-se, decerto, mas o conhecimento adquirido acaba por não ajudar muito a vencer, no presente, aquela dificuldade inicial.

A visão de mundo que elimina da realidade…

A visão de mundo que elimina da realidade o não mensurável e não compreensível, para além de infantil e esterilizante, tende a capacitar o homem a atos monstruosos e torná-lo um animal supinamente traiçoeiro. A compreensão errônea que faz do mundo distorce a importância que reputa a si mesmo, minando as noções de dependência e fragilidade. Mas o pior, sem dúvida, é a ilusão de sentir-se liberto, isolado, habilitado a todo o saber e a todo o agir. Medra, assim, o amor-próprio mais destrutivo que se pode conceber. Nada o sujeita, ninguém o observa, e não há contas a prestar. Tal homem, é tê-lo sempre longe e não lhe dar a menor atenção.

O homem que nutre o ideal de liberdade…

O homem que nutre o ideal de liberdade tende a amargurar-se muito, porque a liberdade nunca é plena e, às vezes, só aparece associada a uma restrição. É inútil querer resolver o problema: em tudo se encontra o indefinido e o determinado. O homem é livre dentro de certas condições e sob certos aspectos dos quais nunca se poderá totalmente libertar. Crer que, um dia, finalmente, conseguirá fazê-lo é simplesmente estupidez. Mas há escolhas as quais não se pode deixar de fazer; há liberdades essenciais. Somente a estas se deve direcionar a atenção.