Parece haver em cada vida individual uma série de decisões necessárias, que se efetivam na biografia quer por bem, quer por mal. No primeiro caso, tudo parece fluir tão naturalmente que a decisão às vezes passa imperceptível, como se fosse um desdobramento inevitável e não propriamente uma decisão. Porém, caso negligenciada, a vida prossegue carregando uma questão pendente, que vai progressivamente se agravando, paulatinamente concentrando mais e mais tensões, até que chega um momento em que é impossível escondê-la, impossível suportá-la, e a vida inteira parece convergir e pressionar para que se tome aquela decisão anterior, que agora se efetiva com atraso, e acarreta, junto de um grande alívio, a sensação de que muito tempo se perdeu.
Tag: filosofia
Há uma mudança positiva quando…
Há uma mudança positiva quando se aprende a valorizar as experiências do passado sem sentir simultaneamente o desejo de revivê-las. Poder-se-ia dizer que fazê-lo é algo como estimular e apreciar a memória, bloqueando ao mesmo tempo a saudade. O sentimento resultante não tem nome, mas agradece pela experiência colocando-a em seu lugar. E disso nascem lições valiosas, cuja principal talvez seja a noção de que há tempo para tudo acontecer. Aprende-se vivendo, e o aprendizado é o reconhecimento de que o vivido teve o seu papel.
O contato frequente com fatalidades…
O contato frequente com fatalidades, especialmente as derivadas da brutalidade humana, é um elemento de efeitos decisivos num caráter. Grande parte da literatura e da filosofia não pode ser devidamente apreciada se o desconsiderarmos. Aquele que viveu o horror de uma guerra, por exemplo, vê-lhe a palavra adquirir um peso que, às vezes, é difícil de transmitir, porque a seriedade do que é dito só a capta aquele que também capta a experiência motivante, sendo esta parcialmente alcançável por um esforço imaginativo, mas nunca, nunca tão intensa como a real. Há autores submetidos a uma dose de ossos, sangue e misérias cujo caráter, se nos estranha, é sinal de que não estamos aptos a analisar.
Ao homem nunca é dada a possibilidade…
Ao homem nunca é dada a possibilidade de fazer tudo aquilo que quer, mas, igualmente, nunca lhe é negada de todo a possibilidade de agir. Tudo fica sempre entre estes dois extremos e, na maioria das vezes, pode-se fazer mais do que se supõe. Não se pode, porém, agir no pretérito ou avançar no tempo, e tais impossibilidades frequentemente constrangem. Tais impossibilidades, em verdade, só podem constranger, e enquanto não se aprende a desprezá-las, não se valoriza o muito, o até sobejo que se pode aproveitar.