O moralismo é imprescindível

Os moralistas são, de fato, imprescindíveis para qualquer estudante sério, tal como o moralismo é imprescindível para a justa compreensão do homem. Sem ele, cai-se em incontáveis armadilhas, e erra-se sempre na valoração que se faz de espíritos e obras. Rousseau não pode ser compreendido através de seu infame Du contrat social, ou através daquela que, segundo ele mesmo, é sua obra mais importante. Compreende-se Rousseau somente quando se confronta este Émile com a nota biográfica que carece a maioria das edições: o autor que escreveu um volume de oitocentas páginas ensinando como devem os outros educar seus filhos mandou os cinco que teve para um orfanato.

Aquele que quer ensinar

Aquele que tem algo a ensinar e quer ensinar precisa compreender que, para efetivar seu desejo, é necessário que haja, também, alguém que queira aprender. É este um fato: o melhor professor não é capaz de suplantar algumas das barreiras possíveis de serem levantadas por um mau aluno; já o bom aluno consegue aprender algo mesmo do pior professor. Disso se percebe que o aprendizado, em suma, é dependente mais do aluno que do professor, limitando-se este a facilitá-lo ou dificultá-lo, estimulá-lo ou desestimulá-lo. Assim é, não importando quão grande seja a vontade ou o conhecimento do professor.

Uma exposição lógica cristalina

Ocorre algo inexplicavelmente engraçado quando nos deparamos com uma exposição lógica cristalina, perfeita e irrefutável, que não exerce nos ouvintes o mesmo brilho e encanto que radia da palavra do expositor. Vem à mente Tomás de Aquino… Que dizer? Infelizmente, a lógica só pode impressionar aqueles acostumados a praticá-la ou, no mínimo, aqueles capazes de compreendê-la. A obra de Tomás de Aquino é uma realização impossível. As provas que apresenta, por exemplo, sobre a necessidade da existência de Deus, não poderiam ser melhor ou mais logicamente formuladas, nem expostas com maior clareza por uma cabeça humana cujo instrumento expressivo é a linguagem. E, ainda assim, são inúteis, absolutamente inúteis e ocas à maioria dos mortais.

Duas posturas básicas

Duas posturas básicas resumem o homem em sua atitude para com a vida: a de vítima e a de agente criador. Delas vemos reflexos infinitos na filosofia, na historiografia, na psicologia e na literatura. Entre ambas, não há conciliação possível, posto que o querer criar e o efetivamente criar nada tem que ver com o sucesso ou fracasso, o fato ou possibilidade, a ideia ou concretização. Tudo se resume a julgar-se paciente ou agente, a julgar sempre o que ocorreu ou como se pode reagir. Trata-se, portanto, de entrever ou não um campo de ação possível, que para alguns é tudo, e para outros inexistente. Entre ambos, mais uma vez, não há conciliação possível, especialmente porque aquele último tipo não suporta a postura do primeiro.