O iniciante elogia com facilidade

O iniciante elogia com facilidade e dificilmente critica. Isto se dá porque o elogio mais condiz com sua admiração de algo que, se compreende, sente para si ainda inalcançável; já a crítica exige-lhe um conhecimento e uma segurança que não tem. Com o experiente, dá-se o contrário: a crítica é-lhe natural, quase automática, e o elogio lhe exige a rara virtude de reconhecer no outro, apesar do próprio conhecimento, uma capacidade que talvez não tenha. O iniciante cresce, portanto, habilitando-se à crítica, enquanto o experiente o faz aprendendo a elogiar: ambos, em suma, contrariando aquilo que lhes é mais fácil.

Os verdadeiros artistas e os verdadeiros filósofos…

Os verdadeiros artistas e os verdadeiros filósofos têm em comum ser-lhes a obra resultante da reflexão sobre a experiência. Desta, em ambos, brota a necessidade de expressão que, em cada um, se concretiza diferentemente. Quer dizer: é através da reflexão que descobrem o que dizer, e após ela que experimentam a sensação de ter de dizer. O resto é o como fazê-lo — o menos importante. Mas esse impulso inicial que os une atesta a verdade daquilo que fazem e os diferencia de todos aqueles que, pelos mais diversos motivos, perpetuam a falsificação.

“A misantropia limita-se aos homens”

Diz o distinto marquês de Maricá que “a misantropia limita-se aos homens, não compreende as mulheres”. Novo engano… Quiçá aplique-se a máxima à misantropia recreativa, à misantropia quando cultivada como hobby; mas não, de forma nenhuma, à misantropia autêntica e profissional. Esta alveja, ou melhor, reage ao comportamento humano, claramente diferente daquele de uma pedra ou de um cachorro, e presente tanto no homem, quanto na mulher. Se uma mulher se comportar como uma pedra, é verdade, há de se admitir que o misantropo a poupará. Mas desde que, oh Deus!, desde que fale, desde que seja capaz de vibrar as cordas e sonorizar uma voz humana, desde que seja capaz de dirigir a outra alma uma palavra, e portanto forçar, impelir, constranger a um ato comunicativo e reclamar para si atenção, fatalmente a mulher estará incluída na lista, o marquês está errado e não há nada que se fazer.

Como lidar com a inveja

Quando somos perguntados sobre como lidar com a inveja, com a maledicência e com a falsidade, é seguro estarmos diante de um jovem, ou de alguém de pouca experiência. “Lidar” é vocabulário de quem ainda se encontra atado ao jogo social e receia aparentar hostil. Em suma, não há “lidar” com a inveja, com a maledicência e com a falsidade. O que há é se afastar terminantemente de invejosos, de maledicentes e de falsos, já no primeiro e menor sinal, sem hesitação nem constrangimento. Para fazê-lo, porém, é preciso ter a personalidade muito bem consolidada, algo que só vem com os anos, e torna possível agir resolutamente e desferir este pontapé automático na conveniência.