Aflições produtivas

É irônico observar que, na maioria dos casos, a liberdade não produza bons frutos quando, em contrapartida, o desejo de liberdade seja um dos mais potentes propulsores do espírito humano. O homem, para ser produtivo, parece carecer de um estado que lhe proíba a inércia por simples necessidade. E toda a aflição oriunda da consciência da própria dependência, toda a tortura psicológica que brota desse desejo impossível de libertação parecem, afinal, proveitosas! É bem verdade que o tempo consagrado ao necessário aparenta sempre acima do tolerável; mas não há dúvida que a mente acostumada à agitação contínua, que tira ação da insatisfação com a própria circunstância, obra mais e melhor simplesmente porque se tornou mais ativa e vigorosa — ainda que por razões, digamos, pouco nobres.

O homem cuja vida expressa-lhe a motivação…

Zimmermann já notava, com dois séculos de antecedência, o que seria provado teórica e praticamente por Frankl:

Une forte résolution et ce désir d’atteindre un grand but peuvent nous rendre supportables les douleurs les plus aiguës.

Se, por um lado, um homem tomado pelo vazio evidencia-lhe a fragilidade diariamente, um homem cuja vida expressa-lhe a motivação íntima, cujos passos lhe parecem justificados, cheios de sentido, este homem parece de uma espécie inteiramente diferente. É como se tivesse, por toda a vida, treinado a si mesmo para a guerra, para a privação e para a dor. Nada parece capaz de abalá-lo. Erigiu-se, com longo e paciente esforço, uma fortaleza psicológica impenetrável. A vida se lhe tornou clara e o mesmo senso de prioridades que o norteia previne-o de sucumbir ao menos importante. Aquilo que, ao primeiro, é o fim da linha, a este configura uma nova oportunidade de afirmação.

O homem recluso, acostumado ao silêncio…

De Zimmermann, em minha tradução francesa:

On a dit avec raison que les savants astreints à une existence solitaire, et occupés de graves travaux, ne peuvent avoir ni la gaieté d’esprit, ni l’élégance de manières, ni la vivacité d’entretien des personnes qui vivent habituellement dans le monde et qui en connaissent tous les usages.

É claro que um homem de hábitos tão raros e tão contrastantes com aqueles dos homens comuns se mostrará, pelo próprio comportamento, essencialmente diferente. O homem recluso, acostumado ao silêncio e à meditação profunda, molda-se a encontrar progressivamente inóspita a agitação dos ambientes comuns. É natural que perca completamente essa expansividade, essa sociabilidade ordinariamente tida como “boas maneiras”. Estas, aliás, não podem senão causar-lhe repulsa e espanto. Tudo se resume a uma questão de hábitos: agrade-lhe ou não, são estes que definirão, com o tempo, aquilo que um homem é.

Para desenvolver-se espiritualmente…

Creio ter sido Paracelso a dizer que, para desenvolver-se espiritualmente, o homem deve passar, todos os dias, no mínimo meia hora recluso, em silêncio, e sem pensar em nada. Noutras palavras: o homem deve cultivar o hábito da meditação. É curioso que a recomendação venha de um ocidental que viveu num tempo em que não havia boas traduções dos textos orientais. Portanto, é de se presumir que Paracelso chegou a tais conclusões pela experiência, a mesma experiência indispensável para validar o que é ensinado há tantos séculos no oriente. Não há negar: a meditação, se praticada regularmente, prova-se indubitavelmente proveitosa. Com o tempo, é possível perceber ostensivas diferenças entre os dias em que se medita e os dias em que a prática é postergada. O exercício de estabelecer a própria vontade sobre a mente, isto é, o exercício de calá-la, anulá-la, controlá-la robustece sobremaneira não somente o autocontrole, mas a capacidade de escolher. Isso para não falar nas sensações provenientes do estado mental induzido pela meditação profunda, nas portas que se abrem pelo esforço contínuo. Enfim, o sábio alquimista sabia o que falava e foi, sem dúvida, um homem superior.