O que jamais deixa de impressionar…

O que jamais deixa de impressionar é sair, de berço estéril, uma natureza extraordinária, que se eleva como sem estímulos e a partir de si mesma, sobrepujando-lhe completamente as circunstâncias. Em casos precoces, o fenômeno beira o inexplicável. A ocorrência mais frequente, porém, nem por isso deixa de impressionar. Nesta, uma análise atenta sempre evidencia a atuação de uma como força centrípeta, que com maior ou menor intensidade direciona, para não dizer impele, à vocação e à resolução de externalizá-la. Desta forma, parece sempre o processo culminar num ponto a partir do qual o passado torna-se estranho mas justificado, embora permaneça um mistério a origem de tão decisiva motivação.

Do ponto de vista de formação do caráter…

Do ponto de vista de formação do caráter, é curioso notar como as facilidades, tão desejadas, são quase sempre inúteis e, se disponíveis em grande quantidade, certamente nocivas. Quando notamos as profundas cicatrizes que se escondem por trás de um grande caráter, temos de nos render a esta beleza tardia, mas perene, que delas é proveniente. Parece irracional ansiar por agruras; contudo, quando se volta os olhos ao passado, há de se reconhecer que nada como elas é capaz de transformar para melhor.

Se é necessário que o escritor estabeleça…

Se é necessário que o escritor estabeleça um elo com seu tempo, ele não pode fazê-lo senão o vivendo. É inevitável… por mais que se tente, não se pode sentir um tempo passado ou futuro como o sentiram e o sentirão aqueles que nele viveram ou hão de viver. Por isso, só se pode ter de um tempo longínquo uma noção, e uma noção inteiramente dependente do grau com que o escritor o sentiu na carne para então nos descrever. Desta forma, viver o próprio tempo pode ser pelo escritor encarado como uma missão em benefício daqueles que ainda não nasceram, e portanto é perfeitamente possível, e até necessário, que ele encontre sentido naquilo que pareça desagradável e importuno: só assim ele poderá ser útil e imprescindível àqueles que virão.

Talvez não haja sensação mais prazerosa…

Talvez não haja sensação mais prazerosa do que aquela que brota como um riso diante das mais amargas circunstâncias. Um riso sincero, que atravessa o espírito e se manifesta pleno, como irradiando-se por cada molécula. Enfim a vida, e dane-se ela! Sem dúvida, é preciso muita maturidade para experimentá-lo, e é justíssima a representação do grande sábio como aquele que se permite um riso sereno, perene e despreocupado. Há uma dimensão transcendente neste riso que brota como desenlace de um tremendo esforço espiritual.