Nada há de menos poético e divino que o remorso

Nada há de menos poético e divino que o remorso, essa dor lancinante e invencível que se instala para machucar. Experimentá-lo é permitir que negreje a mente e a vista não capte senão o desagradável em tudo. É ele como uma força densa que puxa o espírito para baixo em todas as circunstâncias. Curioso confrontá-lo com a repetida recomendação budista de romper e destruir completamente os laços. Não me lembro tê-los visto discorrer sobre o remorso resultante do sofrimento gerado por tal operação. Talvez, estar-lhe-ão com efeitos e cura previstos nesta via infinita do aniquilamento de si mesmo. Não estou certo de que tal via conduza ao nirvana quando percorrida até o fim; sem dúvida, porém, sei que monstros ela é capaz de produzir…

Uma vez absorvida, a filosofia de Schopenhauer…

Uma vez absorvida, a filosofia de Schopenhauer permanece como uma lâmpada negra da qual a mente não consegue se desviar. Há nela um magnetismo, uma atração sombria que faz questão de sempre atrair atenção para si. E então ela se mostra, sempre sábia, verdadeira e desagradável, como impelindo com argumentos irrefutáveis a conduta preconizada pelo seu criador. Diga-se quanto se quiser de Schopenhauer, mas não se pode negar-lhe a força.

O moralista é alguém que engole pedras

O moralista é alguém que engole pedras e, não podendo digeri-las, sente-as a rasgá-lo por dentro num percurso doloroso que se converte em gemidos literários. Deles nada se ganha, a não ser a constatação de que ocorreram e novamente ocorrerão. Nada pode o moralista contra as pedras, e parece haver algo em si que o impele a comê-las uma e outra vez.

Qualquer trabalho é suportável…

De Guyau:

« Maudit soit ce travail qui, semblable à la flamme,
Dévore notre vie et la disperse au vent ;
Maudit ce luxe vain, ces caprices de femme
Toujours prêts à payer sa vie à qui la vend ! »

Oh, desespero! E o impressionante, o inacreditável é ver que tais versos não podem hoje sair senão de penas raríssimas, as incapazes de se adaptarem à normalidade vigente. Sem dúvida, é tal sentimento inconfessável, um pecado contra a sociedade moderna a qual exige o assentimento e a exaltação destas qualidades e desta conduta que mais parece estrangular a dignidade humana. Creio ter sido Dostoiévski a refletir, no cárcere geladíssimo da Sibéria, que qualquer trabalho é suportável, mas constatá-lo inútil, constatar-se a esforçar-se por nada, isso é absolutamente revoltante e intolerável ao homem: numa situação destas, o melhor sem dúvida é não existir. Mas Dostoiévski, talvez, tenha-se precipitado: ao menos hoje, pouquíssimos parecem adequar-se-lhe à constatação.