A vida só parece monótona a quem não lhe presta a devida atenção. Basta registrá-la para percebê-lo, caso os olhos abertos não sejam suficientes ou a memória falha. Esta é uma verdade que impressiona quando constatada: subitamente, parecem fazer sentido muitas singularidades aparentemente banais do passado, que passaram como despercebidas. Então, fica muito difícil não tender a uma interpretação quase mística da realidade, posto que imenso esforço se faz necessário para negar conotações ocultas que revelam-se realidades infinitamente mais plausíveis ao raciocínio. Em suma: a monotonia, o mais das vezes, é mera desatenção.
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No limiar entre covardia e coragem
É preciso ter uma frieza ofídica e valores muito sólidos para, numa situação extrema de risco iminente, refletir num átimo e tomar a decisão correta. Situações assim, em que o homem se encontra no limiar entre covardia e coragem, são frequentemente chaves de uma biografia e seus efeitos perduram por quanto tempo uma vida se estender. É como o caçador que, com o rifle descarregado, é surpreendido por um tigre faminto: o lance se impõe e não há evitá-lo; o olhar fixo na fera evidencia um movimento em falso ser a morte; e, com o coração disparado, tem de o homem decidir.
A liberdade de pensar
É verdade: nada parece tão intolerável e tão revoltante como a opressão que quer tirar do homem aquilo que talvez seja a única coisa realmente sua: a liberdade de pensar. Tal violência não é senão uma investida que, efetivada, resulta na anulação do próprio indivíduo. Um homem chicoteado, mutilado ou violado não perde, em nada, aquilo que lhe consiste a essência, portanto parecem estas agressões muito mais leves quando as confrontamos com a supressão de seu pensamento. Quer dizer: o homem, proibido de pensar livremente, perde-lhe a dimensão humana e aproxima-se de um animal.
A honra reclama a desobediência civil
Há, como diz Thoreau, um momento em que a honra reclama a desobediência civil intransigente, a despeito de a punição para tal comportamento ser a cadeia ou a forca. Esta coisa chamada democracia talvez resuma-lhe o valor em ter substituído tiranias declaradas ou, melhor dizendo, em ter o conhecimento destas últimas tornado “democratas” muitos homens de valor. Então vemos que, na prática, a tirania não fez senão mudar de nome. É impossível não pensar em Kafka quando confrontamos a tal democracia com o indivíduo solitário. Se pensamos, por exemplo, no imenso poder opressivo da máquina do Estado ou, mais especificamente, no dos iluminados de toga, que fazem cumprir quanto quiserem, vemos do outro lado um nada de joelhos, amarrado e sob ameaça dupla do chicote e da mordaça. Porém, agora, num misto de enredo kafkiano e nuances de Orwell e Huxley, a opressão é entregue em embalagens tão afáveis quanto falsas. Compreendê-lo e aceitá-lo de bom grado é atirar no lixo a honra e a faculdade de pensar.