Deveria haver um nome para o sentimento de afeto…

Deveria haver um nome para o sentimento de afeto em relação à própria terra que o diferenciasse deste patriotismo desprezível que não faz senão castrar a mente do julgamento equânime. O próprio dicionário já faria bem apontando xenofobia como possível sinônimo para patriotismo, tendo em vista o uso que se fez deste vocábulo infeliz. Que decepção! Abrir livros de história, e deparar-se com aduladores infames da tirania e do poder, encontrar justificativas inaceitáveis para todo tipo de crime, defrontar o apego à burrice, a recusa inarredável em admitir qualquer virtude que não afague o orgulho “patriota”… Cabe subscrever o que disse Cioran: “Un homme qui se respecte n’a pas de patrie”.

Uma decepção amorosa afeta, o mais das vezes…

Uma decepção amorosa afeta, o mais das vezes, uma camada superficial e menos nobre do indivíduo. Dói, mas é a dor física do animal ferido. Geralmente, não abala o conceito de amor na alma desiludida: é possível encontrar outro alguém. A decepção, porém, quando proveniente de um amigo a quem foi dedicada amizade no sentido único em que esta palavra deveria ser empregada, que eleva as almas envolvidas e enobrece a raça, é como uma punhalada de duríssimas consequências filosóficas e morais. Diferentemente da traição amorosa comum, não é o orgulho que se fere, mas a parte superior da natureza, que não pedia nada e recebeu mesquinhez em troca da generosidade. É algo que enche a alma de desgosto. Arrasa o conceito que se faz dos outros; debilita a capacidade de confiar; mina, de antemão, a disposição para relações futuras… Grande bobagem! Como se esta palavra, exatamente como a outra, já não estivesse corrompida…

As novas filosofias da “indulgência”

Por mais plausíveis, racionais e, sobretudo, sedutoras que pareçam essas novas filosofias da “indulgência” que brotaram no século passado, lamentavelmente pouco elas sabem sobre a natureza íntima do desejo. Embora haja, sim, algum fundamento na crítica dos métodos empregados pelas religiões para condenar a natureza humana e inocular nas almas um sentimento de culpa muitas vezes injustificado e embora, sem dúvida, a repressão violenta dos impulsos pode produzir monstros morais, o caminho da “indulgência” em nenhuma hipótese conduz aos resultados que estas filosofias prometem. Erram elas porque julgam que a indulgência entregará satisfação para as almas, mas esta, pelos meios propostos, é muito, muito fugaz. A indulgência não torna o indulgente senhor dos desejos, assim como não é por repressão que são estes superados. A satisfação perene é proveniente de uma elevação pacífica sobre a carne, um voltar-se inteiramente a algo mais elevado, que não é senão a adoção de uma escala de valores diferente daquela dos homens comuns. Mas aí está: para os novos filósofos da indulgência, adotar tal escala é impensável. O que eles jamais entenderão é que nem todo homem padece do desejo, porque há quem torne suas manifestações simplesmente insignificantes.

Baixíssimo nível

Vou por um autor célebre e não recomendado que propôs uma espécie de hedonismo renovado. Indulgência, abundância material, e uma vida orientada para a satisfação plena dos desejos. Que piada! Comenta o sujeito sobre várias religiões, e a cada nota mostra-se supinamente ignorante sobre todas. Diz ele que, no oriente, houve quem propusesse pela religião um caminho para misturar-se a uma “consciência universal”, posto ser difícil, nestas regiões do globo, o acúmulo material, e portanto razoável fornecer a este povo algo que supere e não dependa daquilo que não podem alcançar. Adiciona, também, que a reencarnação foi concebida como bálsamo para aqueles menos favorecidos nesta vida; portanto, alimentando-os da esperança de uma vida futura melhor. Oh, Senhor! E um sujeito desta estirpe como líder religioso! Não se deu o trabalho de ler um resumo histórico das religiões que comenta, para descobrir que no oriente floresceram no seio de palácios, onde a abundância material e a satisfação dos desejos conduziram a um tédio insuportável! onde a ideia de viver esta vida uma e outra vez ao infinito, como sugere a reencarnação, não lhes suscitava senão terror absoluto, levando-os a tomar medidas extremas para romper com esse ciclo detestável!