As conclusões de Hegel

Há muitos trechos luminosos na argumentação de Hegel, mas suas conclusões parecem sempre incorrer no erro. Vai ele, com sua terminologia escusada, — e que soa terrível em português, — louvando a renúncia e o sacrifício, assentando-lhe o raciocínio num misto de lógica e moralidade, para então nos propor que ambos sejam feitos inútil e automaticamente, não por uma manifestação individual de abnegação, desprendimento, bondade, empatia ou o que for, mas pelo dever de cumprir uma ordem do Estado. Que conclusão! Seguindo o filósofo, o certo é que o discípulo, praticando-os dessa forma, jamais saberá o valor real da renúncia e do sacrifício. É tão óbvio quanto estúpido explicá-lo: aquele que sacrifica um bem ao próximo, quando é este necessitado, pratica uma ação de efeito imediato, e o sacrifício é portanto profícuo e virtuoso; aquele que, em contrapartida, sacrifica um bem ao Estado, isto é, a essa organização corrupta, autoritária, gananciosa e usurpadora, cujos recursos que espolia são empregados em grande parte na manutenção e ampliação do domínio que exerce sobre os indivíduos, o sacrifício não só é inútil, como toma contornos de insulto. Como é possível não percebê-lo? Isso para nem falar que tal sacrifício, no último caso, dá-se por imposição cujo não cumprimento implica castigo. Escuso-me, por mais uma vez benevolente, de esboçar uma conclusão.

A consciência nobre

Que alegria é acompanhar Hegel por centenas de páginas para então vê-lo nos ensinar que a consciência nobre é aquela que acata, amordaçada e de joelhos, as ordens do Estado. “Consciência nobre”, portanto, é a consciência submissa, impotente ante o “poder vigente”, desprovida de individualidade, desprovida, justamente, de algum distintivo que poderia identificá-la como superior. Se isso é nobreza, podemos supor a Beleza como a estética do estupro e corrupção massiva de consciências.

O espírito inclinado ao apego

O espírito inclinado ao apego não está preparado para esta vida. Metodicamente, será forçado a engolir separações inevitáveis, que menos o instruirão por não provirem de uma decisão consciente. Será refém das circunstâncias e sofrerá sentindo-se ante elas impotente. É rara a capacidade de optar amiúde pelo rompimento: e só reservada àqueles que compreendem e aceitam que tudo, neste mundo, há de ter um fim.

É incrível quanto se distancia da realidade…

É incrível quanto se distancia da realidade o sujeito que se tranca numa universidade e emprega-se cem por cento em investigações acadêmicas. Se intelectual, desbarata-lhe a faculdade, empregando-a num mundo particular alheio à realidade. De resto, nem se queixa, pois exerce uma profissão: é como se aceitasse o preço. E nisto se perde a chama que incentiva o estudo porque vê nele a esperança de soluções para problemas de importância real. O intelectual necessita sofrer regularmente choques de realidade, para que insira realidade naquilo que pensa; caso contrário perde-se em futilidades e inutiliza o pensamento. Cioran, por exemplo, era mais filósofo cada vez que estourava ao comprar legumes no mercado e deixava que as consequências tomassem o formato de prosa francesa. Em resumo: o problema nunca foi isolar-se do mundo, e sim o abandonar por completo sua contundência deixando-se inundar da esterilidade das abstrações.