As novas filosofias da “indulgência”

Por mais plausíveis, racionais e, sobretudo, sedutoras que pareçam essas novas filosofias da “indulgência” que brotaram no século passado, lamentavelmente pouco elas sabem sobre a natureza íntima do desejo. Embora haja, sim, algum fundamento na crítica dos métodos empregados pelas religiões para condenar a natureza humana e inocular nas almas um sentimento de culpa muitas vezes injustificado e embora, sem dúvida, a repressão violenta dos impulsos pode produzir monstros morais, o caminho da “indulgência” em nenhuma hipótese conduz aos resultados que estas filosofias prometem. Erram elas porque julgam que a indulgência entregará satisfação para as almas, mas esta, pelos meios propostos, é muito, muito fugaz. A indulgência não torna o indulgente senhor dos desejos, assim como não é por repressão que são estes superados. A satisfação perene é proveniente de uma elevação pacífica sobre a carne, um voltar-se inteiramente a algo mais elevado, que não é senão a adoção de uma escala de valores diferente daquela dos homens comuns. Mas aí está: para os novos filósofos da indulgência, adotar tal escala é impensável. O que eles jamais entenderão é que nem todo homem padece do desejo, porque há quem torne suas manifestações simplesmente insignificantes.

Baixíssimo nível

Vou por um autor célebre e não recomendado que propôs uma espécie de hedonismo renovado. Indulgência, abundância material, e uma vida orientada para a satisfação plena dos desejos. Que piada! Comenta o sujeito sobre várias religiões, e a cada nota mostra-se supinamente ignorante sobre todas. Diz ele que, no oriente, houve quem propusesse pela religião um caminho para misturar-se a uma “consciência universal”, posto ser difícil, nestas regiões do globo, o acúmulo material, e portanto razoável fornecer a este povo algo que supere e não dependa daquilo que não podem alcançar. Adiciona, também, que a reencarnação foi concebida como bálsamo para aqueles menos favorecidos nesta vida; portanto, alimentando-os da esperança de uma vida futura melhor. Oh, Senhor! E um sujeito desta estirpe como líder religioso! Não se deu o trabalho de ler um resumo histórico das religiões que comenta, para descobrir que no oriente floresceram no seio de palácios, onde a abundância material e a satisfação dos desejos conduziram a um tédio insuportável! onde a ideia de viver esta vida uma e outra vez ao infinito, como sugere a reencarnação, não lhes suscitava senão terror absoluto, levando-os a tomar medidas extremas para romper com esse ciclo detestável!

Roteiro simples

O primeiro passo para aquele que não deseja, no fim da vida, senti-la integralmente desperdiçada é encontrar, quanto antes, algo que a preencha de sentido, que motive, que traga o desejo de acordar no dia seguinte — este algo é o que comumente se denomina vocação. Encontrando-a, cabe em seguida executá-la diariamente, independentemente das circunstâncias. Se necessidades mais urgentes roubarem-lhe tempo, é executá-la pelo pouco que seja, mas encarando-a como a prioridade impreterível da rotina — o postergá-la é desbaratar o escasso tempo. Assim, deve-se deliberar a situação atual como temporária, e todo o restante da vida deve visar a criação de condições que permitam exercer tal vocação em tempo integral. Esforços não devem ser poupados, e deve-se valer de tudo quanto estiver à disposição para alcançar esse objetivo e livrar-se desta rotina que lhe é inadequada. Nisto, já se alcança uma satisfação prévia, já se experimenta uma sensação de tempo bem aproveitado. Por fim, há dois possíveis cenários: ao que cria para si as condições para lhe exercer o chamado em tempo integral, basta exercê-lo; aos demais, basta que não desistam, e assim não fecharão os olhos arrependidos de desperdiçar as oportunidades que tiveram.

A mais encantadora das sereias

Esta que é a mais encantadora das sereias, a misantropia, parece mesmo afeiçoar-se a artistas e ser-lhes, além de objeto de culto, fonte primária de inspiração. Formosíssima senhora: mais que sereia, musa! E não canso de admirar como são úteis as barreiras levantadas em redor da mente inclinada à arte. Vigny, e não Victor Hugo, e não Lamartine, foi quem personificou a plenitude da vocação poética. E pior para aqueles que buscam motivação entre pedras!