Parece necessário ao homem que efetivamente sobrepuja as fraquezas da carne o amparar-se numa concepção superior da existência, isto é, acreditar — e é esta a palavra — em algo que transcenda a realidade concreta. Agindo assim, a simples razão aponta-lhe uma escala de valores que lhe deve servir de guia, e orientando-se nela é possível agir de praxe na contramão dos instintos — dando-lhes a importância devida.
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A flor de pétalas negras
Exercitemos a imaginação: um homem, após muito meditar sobre o suicídio, após ponderar cautelosamente todo o tormento de que padece, conclui-o absolutamente injustificável. Busca um amigo, luzindo-lhe tibiamente a esperança de que há algo que não esteja enxergando, de que suas conclusões incorrem em erro desconhecido. O amigo dispõe-se, e começa a lhe falar sobre o cantar dos passarinhos. É possível, para o infeliz, não julgá-lo um insulto? Suponhamos, agora, um monge retornando a pé de longo retiro de silêncio. Uma senhora aborda-o na rua e diz estar receosa de que chova e molhe suas roupas estendidas no varal. Há, novamente, um contrate tão acentuado que parece oferecer o riso como única resposta. Pois bem: deste banalíssimo contraste, nasce uma flor de pétalas negras chamada misantropia.
Desgostos e maturidade
Poder-se-ia definir maturidade como a postura daquele que sofreu desgostos o bastante para perder a esperança infantil característica dos imaturos, não houvesse aí a noção implícita de que sucessivos desgostos acabam, hora ou outra, frutificando em maturidade. É impressionante o contraste: há naturezas que, como o vinho, são refinadas com o tempo; já outras… quão mal o tempo lhes faz! À medida que correm os anos, aumenta-se progressivamente o ridículo de cair em puerilidades; e há quem jamais as supere, senão tombando de mais altos penhascos, e a cada queda reforçando-lhe as convicções! São casos tristes, dignos de compaixão sincera, sobretudo porque a vida, de quem não lhe assimila as lições, não costuma se compadecer.
O homem comum deposita majoritariamente nas relações…
O homem comum deposita majoritariamente nas relações o sentido da própria existência. Relações são extremamente frágeis, e é previsível que, por isso, o homem comum descaia hora ou outra numa fortíssima crise existencial. O homem religioso, porém, o verdadeiro, que nada tem de comum, encontra algo mais firme para se apoiar. Diga-se o que quiser, não se tem notícia de algo como a religião para entregar sentido ao espírito humano: e só por isso já se lhe justifica o papel honroso que presta numa sociedade.