Percorro estes Exercicios espirituales, de Inácio de Loyola, e não posso deixar de imaginá-lo a compô-los nas condições incrivelmente miseráveis descritas em sua biografia. A comparação com Frankl é inevitável. Se confrontamos o teor destas linhas, ou melhor, se consideramos estas linhas como originárias das circunstâncias que rodeavam-lhes o autor, deparamo-nos com uma pujança psicológica inquebrantável capaz de proezas quase sobre-humanas. Enfim, vemos método no esforço consciente em atribuir sentido para as misérias vivenciadas, na afirmação contínua de um voto, na superação dos próprios limites, na transformação da mente em fortaleza indestrutível. Esses Exercicios atestam a vitória absoluta de Inácio sobre o meio circundante e sobre si mesmo. Linhas admiráveis!
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O espírito superior, quanto mais desenvolve-se…
O espírito superior, quanto mais desenvolve-se, mais aumenta o distanciamento entre si e os outros, complicando as relações até torná-las impossíveis. Nietzsche confessou: “A minha humanidade é uma contínua vitória sobre mim mesmo”. E a verdade é que desenvolvendo-se, um espírito individualiza-se, e consequentemente afasta-se de quanto é tido como “comum”. Homens ordinários encontram semelhantes com uma facilidade que é quase uma bênção, justamente por haver entre eles uma similaridade psicológica e comportamental que permite afinidade imediata. Aos que se apartam da norma, tudo é muito diferente. O individualizar-se, por isso, dá-se em detrimento dos vínculos; é portanto um inconveniente que deve ser meditado. Quem se retira dos homens, acaba por transformar-se num estranho; a realidade se lhe transfigura e se, por um lado, evolui espiritualmente, por outro torna-se incapaz da simpatia pelos homens, enfim considerando uma vitória, como fê-lo Nietzsche com a sinceridade habitual, o simples suportar-lhes a proximidade.
Não é justo condenar Freud…
É verdade, é verdade: não é justo condenar Freud por expor as debilidades de seus pacientes, por explorá-las em busca de justificativas; afinal, de outra forma não seria possível esboçar-lhes soluções. Freud, assim, cumpria uma importante incumbência de um psiquiatra. O problema, porém, e o reprovável, é analisar-lhe a obra em conjunto e constatar não haver indícios de possibilidades superiores ao ser humano. Freud, não lhos encontrando nos pacientes, poderia encontrar em si mesmo, poderia concebê-los ainda que numa vontade de superação ineficaz. Mas não o fez; e, naturalmente, validou em si aquilo que esboçou como modelo humano. É curioso: Nietzsche é frequentemente taxado de louco, seu “além-homem” de utopia absurda, sua vontade de potência de delírio. E os mesmos que o não compreendem, aprovam as ideias de Freud. Mas aí está: tanto Freud quanto Nietzsche desnudaram-se, e se neste encontramos um impulso poderoso que impulsiona à verdade, à arte e, sobretudo, à vitória sobre si mesmo, naquele defrontamo-nos com uma prostração ante as fraquezas da carne e da mente, fruto de lamentável miséria espiritual. Não há fugir: a obra acaba, fatalmente, desvelando o íntimo do autor.
Variadas doutrinas ao longo da história…
Variadas doutrinas ao longo da história compreenderam e expuseram que o problema central da existência humana é o justificá-la, que não é feito senão através da própria vida, através de atos que valem por respostas. Variam as terminologias, como variam os caminhos recomendados; o que não varia é a noção de necessidade desta tomada de consciência individual e suas implicações, isto é, a necessidade de agir em conformidade com as aspirações da natureza íntima. Só assim é possível uma afirmação que vale ao ser humano como bálsamo universal. Portanto, pelos mais diversos meios, o que ensinam as grandes doutrinas é a orientação da vida em torno de uma finalidade — e o homem, definindo-a, tem a missão de esforçar-se por sua realização.