É divertido pensar que provavelmente eu tenha sido o primeiro a utilizar “morbidez delirante de um faquir” — foi isso o que escrevi! — referindo-me à obra máxima de Nagarjuna. Nagarjuna, um santo, classificado sempre com superlativos e adjetivos preciosíssimos. Que posso fazer? Culpar-me a mente indomável? Esforço-me, tento imaginar uma realidade muito, muito distante, o silêncio da meditação de anos a fio, mas ainda assim não consigo admitir o contrassenso de boa parte da argumentação da obra. Quero convencer-me de que não me elevei o suficiente, que Nagarjuna raciocina de altitudes inalcançáveis para meu espírito. Quero pensar que o lapso no tempo, a realidade discrepante e a tradução tornaram a obra incompreensível para mim. Mas recordo-me de alguns silogismos e… bom, que venha o futuro, e espero sinceramente ser tomado de uma nova impressão.
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Mulamadhyamakakarika, de Nagarjuna
Perdoem-me os budistas, — pelos quais tenho grande respeito, — mas não posso negar a sensação que experimentei ao percorrer o Mulamadhyamakakarika, do renomadíssimo Nagarjuna. Que dizer? O problema acaso esteja em minha tradução? Não creio… Mas confesso, lendo estas linhas, ter-me sentido não diante da iluminação de um sábio eminente, mas da morbidez delirante de um faquir. Sim, sim, pedras, por favor! Ainda que Nagarjuna, em palavras, mostre-se avesso à conduta de faquires, sou incapaz de imaginá-lo em estado de espírito superior, ao argumentar como empregando a lógica a romper os limites do absurdo. Disse lógica? Já parece faltarem-me palavras… De todo modo, é possível que o problema esteja em mim mesmo; mas não há motivo para ocultar essa estranhíssima sensação.
Alguém como Nietzsche só pode ser apreciado…
Alguém como Nietzsche só pode ser apreciado por espíritos independentes; espíritos, se não afeitos ao pensamento original, suficientemente livres para despegar-se das correntes psicológicas e morais do seu tempo. Estes são raros, raríssimos, e por isso a irrupção de um Nietzsche dá-se como a explosão de uma bomba, gerando escândalo e repulsão em massa. O pensamento vigente é sempre ditado por mentes cativas de quinta categoria, mentes que se horrorizam diante do original. E o curioso é notar que o tempo, que tudo supera e tudo transforma, parece impotente para alterar esse distintivo de toda civilização.
“Nenhum homem é uma ilha”
Alguém disse, sob aplausos, nenhum homem ser uma ilha. Muito bonito, muito bonito… Mas, infelizmente, a afirmação é falsa: há, sim, homens-ilha — e os mais diversos. É verdade: há no homem um impulso que o impele ao convívio; impulso, porém, que pode ser aniquilado com o tempo. Os anos passam, as personalidades se consolidam, os interesses mais separam do que unem — por vezes abrindo um vácuo intransponível entre o homem e o meio. Não é correto afirmar que há um senso de pertencimento comum a todos os homens, como não é correto supor que todo homem encontre afinidades. Assim, é natural que haja homens que se tornem ilhas, quer por força, quer por volição. Há aqueles que, por defesa, vestem uma máscara social — embora acessíveis, são em essência ilhas impenetráveis; — há, também, aqueles cujo aspecto exterior não abre espaço para dúvidas. Enfim, para não ser uma ilha basta não reprimir o naturalíssimo impulso gregário; mas essa, dado momento, é apenas uma das escolhas possíveis…