O budismo provavelmente acerta…

O budismo provavelmente acerta ao dizer que há estados conscientes pelos quais passamos antes do nascimento: a evidência disso é a manifestação lúcida de todos os bebês imediatamente após o primeiro suspiro. Se não nascem herdando a consciência de um estado prévio, pode ser que recém-nascidos sejam visionários, e com isso justifica-se o nascerem todos chorando, aos berros, desesperados, como enxergassem o princípio de uma senda de aflições e tormentos. Impressiona notar-lhes a sabedoria e o conhecimento desta terra. Contudo, em poucos anos de adestramento perdem completamente a lucidez…

O grande drama daquele cuja vida encerra um tormento existencial…

O grande drama daquele cuja vida encerra um tormento existencial é não haver para suas interrogações respostas válidas senão as que ele próprio valida. Como suportar? Adicione-se ceticismo à inquietação existencial, e tem-se o desespero certo. O cético tende a rejeitar as repostas possíveis para perguntas incômodas e não verificáveis: disso deriva seu infortúnio. Ele não pode aceitar o que diz a religião, o esoterismo, o misticismo; ele é programado para rechaçar aquilo que não experimentou. É possível abrir um livro de astrologia e encontrar respostas satisfatórias para tudo; é possível reconfortar-se na salvação cristã, no livramento budista — mas não para aquele que se recusa a acreditar. Toda inquietação existencial conduz a um dilema: credenciar pelo conforto aquilo que se recebe sem provas cabais, ou atirar-se em aflição sem limites. Alguns, como Pascal, adicionam à crença uma dose de raciocínio; outros parecem fadados à insatisfação.

A leitura de místicos

Leio místicos com verdadeiro prazer. Místicos: homens que proclamam ver o que não vejo, que argumentam com aquilo que não posso comprovar. E prazer, é claro, por saber-me eliminando até o último vestígio a presunção ignorante que caracteriza o homem deste século responsável por moldar-me. Alegra-me constatar que possa haver outros com faculdades que não possuo, que não represento o modelo humano em plenitude de capacidades. Lê-los, a mim, é sempre uma lição de humildade.

A fama nunca deixa de acorrentar e corromper

É desolador constatar que a fama nunca deixa de acorrentar e corromper. Exceções são raríssimas. E a consequência disso é que o sucesso, ainda que merecido, chega para destruir. Vasculha-se o passado e se lhe descobre a carência de ídolos autênticos, ídolos que, ascendendo, mantiveram-se fiéis a si mesmos. E assim encerram biografias descrevendo rascunhos lamentáveis de personalidades que se permitiram ofuscar.