É um verdadeiro choque entrar em contato com as páginas de Jakob Boehme. O primeiro impulso é perguntar: como é possível? O universo místico que lhe permeia as linhas parece impensável, inconcebível, imperceptível ao medíocre ser humano. De onde tão engenhosa imaginação? de onde essa concepção da vida que põe de joelhos a banalidade do concreto, tornando irrisório aquilo que os olhos podem ver? A noção do sentido último, a visão dos caminhos, a filosofia que implica uma conduta… todas essas manifestações de um espírito luminoso e respeitável, do qual escuso-me de fazer juízo de valor. Mas o que mais espanta, o que trava o raciocínio e atira o cérebro em perplexidade é estar ciente, a cada página, que o autor das linhas era sapateiro!
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Se houver mesmo um inferno em que os hipócritas padeçam…
Se houver mesmo um inferno em que os hipócritas padeçam, que saiba a sociedade moderna onde irá aventar seu verbo e implantar suas convenções. A hipocrisia é a substância desta dita era do marketing e está arraigada no âmago de sua fundamentação. Sem hipocrisia, já não há relações sociais: é por ela que o homem moderno exibe-lhe a inteligência e a boa educação. “Era do marketing”, e hipocrisia é uma bela versão portuguesa de marketing. O mundo seria mais honesto se o bom trabalhador dissesse: “Trabalho com gestão de hipocrisia”. Mas é claro que jamais o fará. O bom trabalhador não pode sequer ser sincero com os companheiros de trabalho, com os vizinhos, com os amigos, com a família… Será que o inferno comporta tanta gente? Por outro lado, dois caminhos há para o não hipócrita moderno: (1) operar um aniquilamento total das relações sociais ou (2) viver normalmente, sob a pena de ser amplamente odiado e malquisto em todos os círculos, senão desempregado ou pedinte. Fora disso é história…
A obsessão em raciocinar sob todos os ângulos possíveis é a morte…
A obsessão em raciocinar sob todos os ângulos possíveis é a morte do raciocínio: não há limites para o pensamento, os pontos de vista nunca se esgotam. Por isso qualquer tratado ou sistema que se pretenda completo está desde o princípio fadado ao fracasso. O raciocínio amplo exige a confrontação de proposições contrárias e, invariavelmente, anula-as uma a uma quando abordadas com isenção. Se alarga a obra, alarga aniquilando-se e mostrando-se cada vez mais falha. Para todo raciocínio válido há um raciocínio contrário igualmente válido. Se o pensador opta por abrangência, tem obrigatoriamente de abrir mão da assertividade — e, por conseguinte, da potência.
Moralmente o homem mede-se menos por suas afinidades…
Moralmente o homem mede-se menos por suas afinidades que por suas repulsas. Conhecemo-lo espreitando aquilo que rejeita ou, em outras palavras, aquilo que lhe contraria a índole. Menos dizem-lhe os amigos que os adversários, menos aquilo que faz do que aquilo que recusa peremptoriamente fazer. A moral simpatiza com cautela e rechaça com nervos em convulsão.