A saúde é um dos tópicos mais interessantes que se tem notícia, muito em razão de haver pouquíssimo consenso e demasiado em discussão. Uma análise histórica demonstra como noções as mais díspares se foram criando e perdendo, causando reviravoltas no conceito de salutar. Hábitos que, aos gregos, eram tidos como benéficos, séculos depois ganharam a pecha de prejudiciais. Inversamente, o prejudicial passou a benéfico, e tudo isso num ciclo que não parece terminar. A orientação é dificílima; mas, sem dúvida, muito se pode aprender com este estudo, inclusive o tratar-se, mais do que se imagina, de um estudo individual.
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Algo que salta aos olhos nos grandes feitos…
Algo que salta aos olhos nos grandes feitos mais recentes da humanidade, boa parte relacionada à tecnologia, é que nenhum deles possui grandiosidade comparável aos grandes feitos do passado. Tal se nota por serem os primeiros predominantemente feitos isolados da inteligência, para os quais não se exigiu maiores virtudes. Em contrapartida, temos os loucos dos séculos precedentes, cujas façanhas sempre começam por um inalienável risco pessoal. É verdade que, valendo-se de parâmetros distintos, é possível optar por aqueles, em razão de acarretarem transformações mais acentuadas. Mas não há talvez nenhum destes novos consagrados cuja mera ideia de embarcar num veleiro e meter-se com instrumental precário num mar tempestuoso, ou desbravar a pé um território desconhecido, não provoque o máximo terror.
Haver historiadores excelentes narrando…
Haver historiadores excelentes narrando os acontecimentos não parece justificar de todo o grande interesse que desperta o Brasil do Segundo Reinado. Há decerto algo mais que possibilita que, já há mais de um século de distância, se possa sentir com vivacidade a realidade das páginas de um Gilberto Freyre. Todo o restante da história brasileira parece se eclipsar perante a segunda metade do século XIX, e boa parte do que houve naqueles anos não entra na historiografia. Grandes homens, grandes obras sendo produzidas, a impressão de um grande país em desenvolvimento, criando e amadurecendo. Mesmo as disputas, as divergências, a política, carregavam algo de valor atemporal. Noutros períodos, só o dever para cobrir a indiferença que seus sucessos despertam; e mesmo assim, é difícil transportar-se para lá…
Fastos da ditadura militar no Brasil, de Eduardo Prado
Esta obra é uma realização dificílima, na qual o autor, valendo-se de uma ferocidade mais própria do jornalista que do historiador, consegue verbalizar muito melhor que este último o sentimento condizente com os eventos do período abordado. É ainda mais difícil por ter-se provado duradoura, conquanto escrita no calor dos acontecimentos. Bem diferente é a imagem delineada por Eduardo Prado, quando comparada com aquela que outros historiadores, talvez por despropositada cautela, pintaram do mesmo período. Aquele governo provisório foi decerto o primeiro símbolo nacional da ascensão do homem sem virtudes, da consagração da esperteza canalha, responsável por uma profusão de atos indignos outrora impensáveis. Se não valesse por mais nada, esta obra já seria imortal por fazer justiça à figura talvez mais desprezível daqueles anos: o militar de espada virgem, o intelectual sem livros, o doutrinador de quinta categoria em cuja face já se poderia vislumbrar o glorioso futuro que viria a ter a perfídia no Brasil.