Haver historiadores excelentes narrando os acontecimentos não parece justificar de todo o grande interesse que desperta o Brasil do Segundo Reinado. Há decerto algo mais que possibilita que, já há mais de um século de distância, se possa sentir com vivacidade a realidade das páginas de um Gilberto Freyre. Todo o restante da história brasileira parece se eclipsar perante a segunda metade do século XIX, e boa parte do que houve naqueles anos não entra na historiografia. Grandes homens, grandes obras sendo produzidas, a impressão de um grande país em desenvolvimento, criando e amadurecendo. Mesmo as disputas, as divergências, a política, carregavam algo de valor atemporal. Noutros períodos, só o dever para cobrir a indiferença que seus sucessos despertam; e mesmo assim, é difícil transportar-se para lá…
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Fastos da ditadura militar no Brasil, de Eduardo Prado
Esta obra é uma realização dificílima, na qual o autor, valendo-se de uma ferocidade mais própria do jornalista que do historiador, consegue verbalizar muito melhor que este último o sentimento condizente com os eventos do período abordado. É ainda mais difícil por ter-se provado duradoura, conquanto escrita no calor dos acontecimentos. Bem diferente é a imagem delineada por Eduardo Prado, quando comparada com aquela que outros historiadores, talvez por despropositada cautela, pintaram do mesmo período. Aquele governo provisório foi decerto o primeiro símbolo nacional da ascensão do homem sem virtudes, da consagração da esperteza canalha, responsável por uma profusão de atos indignos outrora impensáveis. Se não valesse por mais nada, esta obra já seria imortal por fazer justiça à figura talvez mais desprezível daqueles anos: o militar de espada virgem, o intelectual sem livros, o doutrinador de quinta categoria em cuja face já se poderia vislumbrar o glorioso futuro que viria a ter a perfídia no Brasil.
O livro mais importante ainda a ser escrito…
O livro mais importante ainda a ser escrito por um novo e necessário Gilberto Freyre descreverá o que se passou no Rio de Janeiro nos últimos cem anos. Tal obra, se levada a cabo com seriedade, será a mais significativa do século. É uma catástrofe humana talvez sem precedentes que separa o Rio de Janeiro de Machado de Assis do Rio de Janeiro dos anos 2000 e, ainda que se mostre escandalosamente, é difícil traçar a sucessão de fatos que a possibilitou. Para isso, seria preciso reunir documentos, e penetrar na história com uma consciência e argúcia incomuns, capazes de identificar as raízes psicológicas de um fenômeno cristalizado fisicamente. Alguém terá de fazê-lo. De uma destruição como essa, algo de muito importante se deve aprender. Possivelmente, o destino brasileiro depende do sucesso de tal realização.
Parece haver uma distinção moral…
Parece haver uma distinção moral demasiado evidente entre os grandes argonautas do passado, que separa aqueles motivados por descobrir, e aqueles motivados por dominar. São impulsos muito diferentes, e que só aparentemente se coadunam. Para discerni-los, o mais das vezes, basta analisar os sucessos após o desembarque na terra encontrada. Causa estranhamento, portanto, que não fique tudo isso muito claro, possibilitando que a verdadeira glória seja conferida aos verdadeiros e bravíssimos heróis.