Parece fictícia a biografia de Inácio de Loyola. Lê-la neste século, lê-la no ocidente observando que se tornou o ocidente, suas grandes cidades, suas preocupações, é como colocar-se diante de uma narrativa absurda. É de causar assombro a simplicidade como fatos estupefacientes se apresentam nesta “Autobiografia”, redigida pelo P. Luís Gonçalves da Câmara, que limitou-se a transcrever quanto ouviu da boca de Inácio. Algumas poucas vezes, lemos Inácio ter corrido risco de vida em sua trajetória, mas a impressão que ficamos é que, desde que saiu da casa paterna, esteve ele sempre em constante ameaça. Prisões, julgamentos, perseguições, doenças, incrível penúria… é difícil imaginar condições mais severas para este homem reputado santo. O simples superar a sexta década de vida, como fê-lo, já se afigura a nós, homens mal-acostumados, um verdadeiro milagre.
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“Heróis” dignos de desprezo
A maneira como, em Guerra e paz, Tolstói repetidamente desdenha do “gênio militar” que deixou a Rússia destruído e de todos os seus vis admiradores é uma mostra acachapante de sua nobreza e altivez moral. O desserviço que prestam historiadores idolatrando loucos assassinos, escravos das ambições mais abjetas que fizeram da carne humana o trampolim para seus anseios mesquinhos, apresentando-os como criaturas superiores e modelos de virtude é digno de repulsa total. Tais historiadores, lambedores de botas medíocres, frequentemente encontram o admirável em tarados responsáveis por carnificinas espantosas, e o narram com a pompa de um patriotismo vestido de honra — mas são os mesmos que, em vida, vendem a honra por um elogio público e imploram de joelhos por aceitação.
Um processo evolutivo onde o falso perece
Se historicamente ocorre, como diz Thomas Carlyle, um processo evolutivo onde o falso repetidamente perece, é forçoso concluir que a sociedade está fadada a erigir e derrubar mentiras. Do contrário é perguntar: por que algo igualmente falso sempre sobrepõe-se à falsidade derrubada? Ou ainda: quantos milênios adicionais serão necessários para que o homem livre-se deste ciclo maligno? A nível coletivo, parece impossível qualquer esboço de solução.
Thomas Carlyle sobre Maomé
O ensaio de Thomas Carlyle sobre Maomé é notável. De início, pela prosa superior: como impressiona acompanhá-lo a manejar a língua inglesa! É uma prosa viva, repleta de imagens expressivas, inteligente e variada sintaticamente. Depois, pela capacidade de Carlyle em ver o que os outros não enxergam, pela coragem de confrontar a corrente, rejeitando a lógica cega e buscando entender o que se encontra por trás e para além das linhas de Maomé. Muito bonito, muito bonito… é um ensaio prazeroso de se ler. De toda forma, creio que ainda prefiro sentar-me à mesa de Voltaire.