Essa coisa de atribuir heroísmo a assassinos…

Essa coisa de atribuir heroísmo a assassinos depravados é algo que muito irrita nos livros de história, e é repugnante ver neles a naturalidade com que são narradas as perversidades mais assombrosas movidas pela ambição mais desprezível e, pior, o efeito inócuo destas nos pareceres do historiador. Heroísmo é sempre desprendimento, nunca o contrário. A normalização da barbaridade é a pior mácula histórica no caráter europeu.

Nenhuma das injustiças de que Frei Vital…

Nenhuma das injustiças de que Frei Vital foi alvo durante sua breve vida parece comparável às inúmeras que, desde sua morte, são perpetradas por inumeráveis historiadores — e bons historiadores… Que dizer? De seus coevos, muito pouco: erraram e vários deles se arrependeram; erraram quase todos por defeitos menores, exageradamente amplificados pela pertinácia. Já os historiadores, como absolvê-los? O que temos, hoje, graças a um falseamento mil vezes repetido, é a imagem de um bispo desarrazoado, tomado pela impetuosidade típica da mocidade, a agir impulsiva e irrefletidamente, quando, em verdade, nos mais acirrados momentos de sua polêmica não se viu senão um homem probo, ciente de até onde um bispo pode transigir. O resto são mentiras, só plausíveis se ocultadas, como são nos livros de história, as verdadeiras circunstâncias que desencadearam esta famigerada “questão”.

O Brasil imperial é marcado por um desfile…

O Brasil imperial é marcado por um desfile de personagens que, apesar de defeituosos, exibem sólidas e inegáveis virtudes. Tão numerosos os embates em que se percebe evidente, de ambos os lados conflitantes, o desejo sincero de acertar. Também numerosos os erros; mas, o que hoje impressiona, há arrependimento e retratação. Encontra-se a perfídia, encontra-se o interesse mesquinho, mas sobram exemplos de retidão e magnanimidade. Um painel, em suma, que os historiadores do presente não terão a sorte de apreciar.

O projeto de destruição histórica

No Brasil, o projeto de destruição histórica e corrupção da então incipiente identidade nacional logrou êxito invejável, e é modelo a ser imitado pelos canalhas que o futuro ainda há de conceber. De nossa parte, é muito difícil colocar em palavras a sensação de ter de recorrer a um sebo por um livro de história não reeditado há mais de meio século, um livro de história que, pela qualidade e pelo período histórico abordado, sequer encontra concorrentes, e mesmo assim encontrá-lo ali e só ali em aspecto lamentável, surrado quando não parcialmente destruído. Somos tomados por um misto de sensações e, em mente, vem-nos a imagem do autor, da seriedade de seu trabalho, da injustiça, da infâmia, de Deus… e permanecemos fixados nas ruínas que se mostram diante de nós.