Casa-grande & senzala, de Gilberto Freyre

Aí está algo que me desagrada: classificar estas notas por temática. Burocracia irritante, quando quero simplesmente escrever. Sobre o que escrevo exatamente? Eis um enigma — mas quem se importa? — E outro enigma muito mais difícil, e tão pouco importante quanto, seria classificar esta Casa-grande & senzala. Aqui, contentamo-nos com “história”. Mas seria mesmo história? Ou sociologia? Antropologia? Um ensaio ou literatura? Nenhum destes ou tudo isso misturado? Gilberto Freyre, ainda em vida, teve de ouvir numerosas críticas aos mais diversos aspectos da obra, contudo ainda hoje, quase um século após sua publicação, não há, talvez, um único livro capaz de mostrar-nos com tamanha abrangência e detalhamento os aspectos de formação da sociedade brasileira. A obra entrega o contexto histórico, psicológico, antropológico e sociológico desde os princípios da colonização analisando a evolução e os precedentes da vida cotidiana em diferentes núcleos sociais. Os críticos bem apontam Gilberto Freyre ter deixado de preencher alguns formulários… Verdade, verdade… Os formulários… As 72 páginas de bibliografia da obra deveriam ser, naturalmente, 572. Mas se o leitor, indulgente e benigno, for capaz de lidar com esse descuido imperdoável, esteja certo de que Casa-grande & senzala entregará, em linhas de intelectual apaixonado pelo país em que viveu, o cheiro dos séculos passados — cheiro esse, aliás, incrivelmente semelhante ao que exala de nossa pele.

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Ingratos, de D. Pedro II

Um soneto de D. Pedro II direcionado àqueles que escreveram talvez as páginas mais vergonhosas da história brasileira, cuspindo em obra e memória do mais honrado de seus compatriotas:

Não maldigo o rigor da iníqua sorte,
Por mais atroz que fosse e sem piedade,
Arrancando-me o trono e a majestade,
Quando a dous passos só estou da morte.

Do jogo das paixões minha alma forte
Conhece bem a estulta variedade,
Que hoje nos dá contínua f’licidade
E amanhã nem — um bem que nos conforte.

Mas a dor que excrucia e que maltrata,
A dor cruel que o ânimo deplora,
Que fere o coração e pronto mata,

É ver na mão cuspir a extrema hora
A mesma boca aduladora e ingrata,
Que tantos beijos nela pôs — outrora.

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História da literatura ocidental, de Otto Maria Carpeaux

História da literatura ocidental, esse colosso de quase 3 mil páginas, é, simplesmente, um monumento imortal erigido em língua portuguesa e publicado no Brasil. O austríaco Otto Maria Carpeaux, que adotou nossa pátria e pôs-se a aprender nosso idioma já na meia-idade, deu às letras nacionais o que brasileiro algum jamais dará. Pode-se dizer, sem medo do erro, que foi Carpeaux o maior erudito brasileiro de todos os tempos. E, se temos no jardim esse colosso único, impressiona que nós, brasileiros, não demos o menor valor. Palavras de Carpeaux que prefaciam a primeira edição da obra dão ideia da magnitude desta História da literatura ocidental:

Estudaram-se todas as literaturas românicas e germânicas da Europa e seus ramos na América do Norte e do Sul; as eslavas e outras da Europa oriental; e, naturalmente, as literaturas grega e neogrega. (…) Foram estudados, em suma, mais de 8.000 autores. Mas a obra não tem pretensão nenhuma de ser um dicionário bibliográfico completo.

Modéstia… O estudo empreendido por Otto Maria Carpeaux e publicado em 1959 é único a nível mundial. É o que diz, também, Olavo de Carvalho, em excelente ensaio que prefacia a edição da Topbooks de Ensaios reunidos, outra obra de Carpeaux:

O homem de quem estamos falando é autor da única história da literatura jamais escrita na qual a sucessão das idéias e criações literárias no Ocidente, de Hesíodo a Valéry, aparece como um movimento contínuo que, por baixo da variedade desnorteante das suas manifestações, não perde jamais a unidade de sentido.

Que dizer? Penso em Carpeaux e me espanta o silêncio. Não se fala em Carpeaux, não se comenta sobre o homem de maior relevância na crítica literária nacional. Hoje, já estamos em distância que nos permite o juízo imparcial: Carpeaux, dentre todos os críticos, foi quem prestou o maior serviço às letras nacionais. Nada em português se compara à sua História da literatura ocidental.

História da literatura ocidental é capaz de dotar qualquer estudante de um conhecimento abrangente e preciso sobre os principais autores de mais de vinte séculos de literatura. É capaz de guiar um plano de estudos por décadas. E engana-se quem pensa que Carpeaux tão somente apresenta os autores e insere-os no contexto em que produziram suas obras; Carpeaux critica, transita com extrema argúcia por entre as correntes de pensamento mais diversas, pelos variados estilos e variadas concepções estéticas, analisa biografias e traça a evolução dos autores, insere as obras no contexto em que foram produzidas mostrando-nos, por fim, o peso histórico de cada autor segundo o seu julgamento.

Mas onde estão, por exemplo, as traduções dessa obra imensa? Longe, muito longe… Digo e pareço sonhar. Carpeaux não aparenta sequer consolidado no Brasil. Não atraiu sequer o interesse de biógrafos. Pergunto: o que estamos esperando? que surja alguém mais relevante a escrever sob o sol brasileiro? alguém de cultura superior? Ah, claro… então esperaremos… esperaremos, talvez, por muitos séculos, talvez para todo o sempre…

Otto Maria Carpeaux foi um intelectual enorme. Deu ao Brasil o que nunca tivemos, o que sempre nos faltou. Será que podemos, hoje, prescindir de Carpeaux? virar as costas à sua História da literatura ocidental?

É uma escolha. Contudo está, diante de nós e muito bem construída, a ponte para integrar nossa literatura a todas as culturas de todas as épocas. Cabe-nos, porém, a decisão de atravessá-la — ou, é claro, continuar como somos: irrelevantes no cenário mundial.

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Lições de história

Um brasileiro comum, hoje, certamente sabe dizer o nome do presidente do STF, da Câmara ou do Senado. Sabe dizer, também, o nome dos ministros do governo. Em contrapartida, não sabe dizer, de pronto, quais eram os presidentes do STF, da Câmara e do Senado em 2009. Também não sabe dizer, por exemplo, o nome dos ministros do governo em 2005. Pouquíssimos brasileiros saberiam, de fato, dizer o nome de um único presidente do Brasil no período entre Floriano e Vargas — e cá se vai mais de meio século! Em contrapartida, um número muito maior saberia dizer o nome de um livro de Machado de Assis, ou qual a obra máxima de Euclides da Cunha, ou ao menos dizer que faziam da vida o Machado de Assis e o Euclides da Cunha. Esse tipo de reflexão nos permite, facilmente, constatar a relevância histórica dos fatos, dos políticos, e a inutilidade das questões cotidianas. O jornal de hoje daqui a um ano não terá uma mísera notícia que seja digna de leitura. Assim nos ensina a história.

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