Mais impressionante do que os feitos descritos…

Mais impressionante do que os feitos descritos na biografia de Milarepa é a caracterização perfeita da loucura como constituinte necessária da santidade. Só de imaginá-lo como retratado, um “esqueleto” de pele esverdeada, um “fantasma”, um miserável debilíssimo, vestido em farrapos… E mesmo assim notar-lhe a vontade pétrea, a abnegação total e a resolução que não cede perante as mais intensas e mais básicas necessidades. O que mais impressiona é que, após assimilar a razoabilidade da loucura, acaba-se constatando que loucos, em verdade, estavam todos os demais.

O mais interessante em toda biografia…

O mais interessante em toda biografia é reparar nas coincidências que não parecem coincidências, e embora frequentemente nada possamos fazer senão identificá-las, o seu conjunto parece sempre guardar algo de revelador. Há acontecimentos cuja explicação é cem por cento ociosa: o próprio fato diz mais do que qualquer possível justificação. E marcam, transformam, determinam, de forma que, às vezes, identificá-los ou não significa compreender ou não compreender.

É sempre admirável quando o historiador…

É sempre admirável quando o historiador ou o biógrafo conseguem demonstrar-nos com clareza o homem que existe por detrás da obra. É esta uma tarefa dificílima, repleta de armadilhas que podem comprometer todo o esforço de compreensão. Mas, quando bem-sucedida, entrega ao leitor um material de valor inestimável, não apenas quanto à conexão entre vida e obra do qual depende, mas também quanto ao painel maior da existência. Vemos ali hábitos, crenças, conflitos, ideias, predisposições, e quer nos identifiquemos com eles, quer não, aumentamos nosso arsenal de possibilidades, compreendemos a vida melhor. É um material que nos possibilita, em suma, aprender com o exemplo de um homem real.

Realmente, é preciso ter muito cuidado…

Realmente, é preciso ter muito cuidado com uma história geral de qualquer coisa, porque necessariamente ela mais irá esconder do que revelar. Decerto, disso não se pode concluir que seja inútil, mas é preciso ter consciência de que para cada uma das conclusões que porventura delineie, haverá exemplos contraditórios na história específica dos eventos abordados. Assim, embora não se possa desprezar o esforço tremendo na realização de uma história geral, é evidente que a melhor história é sempre a micro-história, e é nela que qualquer estudo sério se deve concentrar.