Certamente, não são de Góngora ou Lope de Vega poemas como Salmo I, La hora de Dios, El buitre de Prometeo, Alborada espiritual, ¡Perdón!, Vencido, Las siete palabras y dos más, ou sonetos como Al destino, Fe e Resignación. E se, neles, Unamuno mostrou-se “mais filósofo que poeta”, qual seria, pois, a qualidade poética de que tais versos carecem? Ou ainda: em qual sentido a verve poética daqueles autores seria superior à de Unamuno? A verdade é que, nos referidos poemas, a expressão não poderia ser mais vigorosa, nem a motivação mais autêntica. E se isso não coloca Unamuno no primeiro escalão dos poetas espanhóis, talvez seja conveniente criar um novo grupo para inseri-lo — e será este o grupo dos poetas cuja leitura é mais significativa para o leitor.
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Ortega y Gasset, Antonio Machado, Pío Baroja…
Ortega y Gasset, Antonio Machado, Pío Baroja… a literatura espanhola deu-me leituras memoráveis. Nenhuma, contudo, provocou-me sentimento parecido ao que experimentei após o contato com Unamuno, o qual pareceu-me um familiar. Há, nas letras, casos assim: uma fronteira separa a admiração, a empatia, o apreço, deste sentimento inconfundível de identificação. E é sempre especial ver num autor um membro da própria espécie, cujas inquietações são aquelas intimamente sentidas, cuja expressão vocaliza algo que se poderia dizer. Raro, mas quando ocorre evidencia que não há individualidade intransmissível; sempre houve e sempre haverá semelhantes que, através da literatura, possam compreender.
O atributo que se tornou mais característico…
O atributo que se tornou mais característico do português escrito é a utilização apurada dos pronomes, o que já não se vê no português falado, salvo em algumas poucas regiões. Tal domínio, sozinho, pode transformar um texto canhestro em elegante, algo ostensivamente perceptível em traduções. O tradutor inabilidoso, o escritor inabilidoso, não conseguem se valer dos pronomes para dotar os períodos da concisão e do estilo possibilitados pelo idioma, e o resultado é que um discurso gramaticalmente correto, uma tradução semanticamente precisa, soem como mal escritos em português. Talvez, não haja outro elemento da técnica que transmita mais inteligência a um texto, nem outro elemento sobre o qual o estudo dos clássicos mais tem a instruir.
O que há de mais divertido na escrita
O que há de mais divertido na escrita é a possibilidade de individualizar completamente o processo, de maneira a fazer com que o elemento subjetivo atue como potencializador. Na maioria das ocupações, isso não é possível, e a eficácia do processo costuma demandar uma execução sequencial objetiva, algo que, com o tempo, tende a desestimular. Mas o escritor pode muito bem habituar-se a passar um café, ou acender um cigarro nos momentos anteriores ao trabalho, e presenciar, efetivamente, que ao fazê-lo as ideias começam a se mover. No seu processo criativo, há lugar para todas as suas manias, e isso produz uma enorme satisfação.