Pär Lagerkvist é mesmo um grande escritor, que conseguiu transferir para as letras o essencial de sua experiência angustiante; e o fez de tal maneira que, já no contato inicial, o leitor se percebe diante de um espírito incomum. É engraçado: o sujeito que avança no pensamento sem permitir que ele descole da experiência, e que avança sentindo-o, tentando integrá-lo, não querendo valer-se dele senão para obter respostas para as questões que julga fundamentais, sempre acaba penetrando o terreno da religião. E aí que, de duas, uma: ou é do tipo afortunado que obtém respostas, ou é, como Lagerkvist, do tipo que não consegue obtê-las, nem se livrar das perguntas, e que logo se encontra dominado por uma invencível obsessão. Este último tipo parece produzir escritores mais fecundos; e não somente escritores: produz homens que, pelo esforço de uma vida inteira, acabam por justificá-la, justificando também a angústia interminável que correrá sempre de geração em geração.
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Se releio algumas dezenas de páginas…
É inacreditável! Se releio algumas dezenas de páginas escritas por mim mesmo, em verso ou em prosa, não há uma única vez que não encontre, gritando, algum deslize, que parece-me como grafado em letras garrafais. Todas as vezes, sempre, cem por cento dos casos! Daí que, diante do absurdo, diante do fato incontestável de estar ali o lapso impossível, tenho de conjeturar que seres desconhecidos estão a vasculhar e alterar-me os escritos, mesmo depois de revisados, porque seguramente tais erros não sou capaz de cometer. E não adianta tentar consolar-me com tolas ideias de que são muitas as variáveis, que o enquadramento do texto na tela porventura me prejudique, que é o diabo essa coisa de digitar, deletar, selecionar e sobrescrever: há erros injustificáveis, indignos de perdão. Mas, graças a Deus, não posso afligir-me nem irritar-me demasiado: lembro-me sempre de Machado, redentor dos escritores brasileiros passados e futuros, que, com aquele magnífico “lhe cegara o juízo”, está eternamente disponível para me socorrer.
É um ato quase heroico este de dedicar…
É um ato quase heroico este de dedicar à literatura as últimas horas de um dia extenuante, quando corpo e mente parecem não suportar esforço adicional. É mesmo o diabo, como uma vez desabafara Carpeaux. E mediante outro desabafo, o de Ferreira de Castro, percebe-se que a situação nunca toma outra forma senão a de luta duríssima: mesmo o hábito não parece forte o suficiente para evitar aqueles dias em que se sucumbe ao cansaço, em que não se consegue pensar, e não se consegue escrever. Ah, quão mais fácil seria a vida sem duas ocupações! E, ainda assim, é essa a sorte da maioria, e foi em semelhantes condições que o dever venceu a natureza e produziu boa parte do melhor que a literatura tem a nos oferecer.
Literariamente, não há dúvida de que os tons…
Literariamente, não há dúvida de que os tons instrutivo e confessional não estejam entre as formas mais requintadas, e de que produzem amiúde antipatia em leitores experientes. Porém, se tomarmos Tolstói como exemplo, veremos que, embora seguramente não sejam suas obras-primas, os livros que escreveu se valendo dos tons referidos possuem um sabor especial. É como se o grande autor, o homem de qualidades indiscutivelmente reconhecidas, se despisse de toda sorte de artifícios para expressar objetivamente aquilo que mais o marcou e que, se pudesse, gostaria de nos ensinar. Para um romancista, é ato que exige coragem, porque significa assinar uma peça falta de encanto literário, uma peça que provavelmente desagradará. Mas nós, que a lemos, não podemos negar que, por ela, aproximamo-nos um pouco mais do homem que escolheu não se esconder, nem se preservar.