Não faz sentido ler, senão para tomar posse daquilo que foi lido; e isso dificilmente se faz numa primeira leitura. Portanto, a assimilação exige a releitura e exige o retorno àquilo que, no primeiro contato, chamou atenção. É por isso que o intelectual deve gastar um bom tempo planejando e executando o seu método pessoal de organização. Notas, trechos destacados têm de se tornar matéria viva em sua rotina de estudos: têm de estar à mão quando se necessita, e sempre à vista para evitar que caiam no esquecimento. É relê-los metodicamente e ver que, com o hábito, eles germinam dentro de si.
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O grande interesse provocado pelas epístolas…
O grande interesse provocado pelas epístolas, hoje, deriva basicamente de se tratar de literatura que já não se produz, e de se tratar, por vezes, do conteúdo mais íntimo de determinadas obras. Aqui, sobretudo, reside o maior atrativo: pelas cartas podemos descobrir um autor que pode apenas se manifestar em camadas mais profundas de sua obra, mas cuja compreensão é essencial. Ocorre, porém, e é lamentável notá-lo, que nem sempre encontramos nas cartas a sinceridade que buscamos. E percebemos claramente que foram escritas visando a publicação posterior. O estilo, assim, perde o atrativo; brota a desconfortável sensação de estarmos sendo enganados. E o interesse se esvai…
O que se pode dizer do estudo da teoria literária…
O que se pode dizer do estudo da teoria literária é mesmo que se pode dizer do estudo da estilística: contribuem ambos, e são valiosos ao escritor que leve a sério o seu trabalho. Fornecem-lhe meios para dizer criativamente o que porventura queira dizer. Mas não lhe ajudarão a ter o que dizer. Nem tornarão os seus temas mais interessantes. Nem configuram um estudo essencial. O estudo da gramática, este sim, é basilar e não deve ser negligenciado. Um verdadeiro escritor que a domine, no entanto, pode muito bem produzir grandes obras desconhecendo por completo o objeto de estudo daquelas estimulantes, mas superestimadas disciplinas. Aliás, assim fizeram todos os escritores até o século XX.
O gênio literário é aquele que consegue…
O gênio literário é aquele que consegue captar e expressar, à sua maneira, a natureza íntima das coisas. É o autor cuja primeira leitura nos provoca aquela sensação de redescoberta de que fala Lavelle, que parece lançar uma luz inédita sobre algo que já sabíamos, mas se encontrava escondido em nosso interior. Então, pela expressão singular e memorável, tomamo-lo em definitivo como patrimônio nosso. Esse tipo de experiência, só os verdadeiramente grandes podem-na proporcionar.