O gênio literário é aquele que consegue…

O gênio literário é aquele que consegue captar e expressar, à sua maneira, a natureza íntima das coisas. É o autor cuja primeira leitura nos provoca aquela sensação de redescoberta de que fala Lavelle, que parece lançar uma luz inédita sobre algo que já sabíamos, mas se encontrava escondido em nosso interior. Então, pela expressão singular e memorável, tomamo-lo em definitivo como patrimônio nosso. Esse tipo de experiência, só os verdadeiramente grandes podem-na proporcionar.

Não há salvação para o leitor que, no primeiro…

Não há salvação para o leitor que, no primeiro contato com Dostoiévski, não seja tomado da mais alta admiração por este homem que, em circunstâncias desesperadoras, apreendeu e conseguiu expressar muito do que há de mais íntimo na alma humana, com intensidade e originalidade ímpares. Nada se há de esperar do sujeito que, diante desta realização artística única e óbvia, não se afaste para sempre da esterilidade daquela crítica que tem na forma o verdadeiro pendão da alta literatura. O sujeito que se impressiona mais com esta ou aquela técnica narrativa, com este ou aquele recurso discursivo, com tal ou qual organização estrutural do texto, do que com a raríssima perspicácia do verdadeiro gênio, merece tão somente compaixão.

As biografias e, especialmente, as autobiografias…

As biografias e, especialmente, as autobiografias de grandes homens exercem um fascínio que dificilmente pode ser igualado. Mormente estas em que o impossível é fato consumado, que nos convencem que ele acontece e pode acontecer. Daí que só com muito esforço se tornam tediosas. O mais das vezes, transmitem essa noção perfeita e fundamental de haver um sentido no todo, algo cujo não percebê-lo é o que cola a uma biografia o epíteto de medíocre. Por sorte, estas não fazem boas histórias, e raramente temos de encará-las. Nas outras vezes, ficamos diante de páginas que não temos vontade de largar.

Cioran recomendou, corretamente…

Cioran recomendou, corretamente, que basta ao sujeito que sofre um acesso de raiva em relação a alguém pegar um papel, uma caneta, e registrar algumas dezenas de insultos: “Ele é um porco, um crápula, um bandido, um animal…”. A raiva passa. Se não passa, diminui drasticamente, e o registro escrito provoca uma espécie de libertação. Ora, o que se passa com a raiva, também se passa com a angústia. Mas são procedimentos diferentes. A raiva vai-se com o jato frenético e vertiginoso, vai-se no próprio modo de escrever. Já a angústia se dissipa, ao menos em parte, com a racionalização. Sempre se dá o mesmo: evocá-la como que a intensifica, atira a mente num processo penoso; contudo, pouco a pouco, com descrever o seu modo de operação, ela vai perdendo força, como se a compreensão a neutralizasse. No fim, tem-se um texto: está ela ali exposta, talvez muito desagradavelmente; mas efetivamente diminuiu.