O verdadeiro artista, compreendendo-lhe a vocação e o papel nesta terra, tem de aceitar que pouco importa quanto lhe ocorra em vida, de quais tormentos padeça, por quais caminhos erre. O que importa é o proveito que tira da matéria-prima que lhe é oferecida para modelá-la e convertê-la em arte, reagindo à realidade que o circunda e às condições que lhe são impostas. Não há controle sobre o meio; há, porém, sobre as respostas — que representam, em suma, a individualidade do artista.
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A lição de Dostoiévski
Se há algo instrutivo em Dostoiévski, que deveria ser aprendido por todo artista, é o fato de que o cristão Dostoiévski, quando coloca palavras na boca de um niilista, deixa de existir. Isso é arte; é pré-requisito para uma obra que se tencione convincente. Se tomamos isoladamente Os demônios, por exemplo, essa obra magnífica em que o niilismo talvez nunca se tenha expressado de forma tão eloquente e multifacetada, o cristão Dostoiévski aparece tão acanhado, em meio a vozes múltiplas e fortíssimas, que aparenta quase inexistente. É por isso que muitos taxaram Dostoiévski, o cristão, de niilista. E é por isso que sua obra, suscetível de interpretações intermináveis, é um dos tesouros mais autênticos da literatura universal.
Variações estéticas…
No primeiro volume de Casos, os rasgos selvagens, a dramaticidade e a violência beiram o absurdo. Talvez, terei eu feito uma homenagem de estilo àquele de quem herdei o formato. Já no segundo volume, retirei o sangue, afrouxei os arcos dramáticos e, estruturalmente, experimentei escrever quase sempre sem amarras, mantendo porém o formato, a ver se as narrativas sairiam mais naturais. O resultado? Vacilo em concluir… Certamente, foram narrativas menos impactantes; mas, talvez, mais espontâneas e sinceras.
Maravilhas deste século
É uma verdadeira maravilha poder encontrar, em poucos cliques, do fim do mundo, áudios em línguas mortas pronunciadas conforme o falar original. Penso no estudo dos idiomas em séculos passados. É inevitável enxergar-me privilegiado. Por muito tempo li inglês desconhecendo-lhe a pronúncia correta: um erro crasso e comprometedor — e só o compreendi quando coloquei-me a ler poesia. Em poesia, desconhecendo-se a pronúncia, não se compreende contrações que porventura ocorrem, por vezes a métrica aparenta confusa e, principalmente, ignora-se a sonoridade dos versos que, em muitos casos, é fundamental. Em The raven, por exemplo, pronuncie-se aberto o “o” tônico fechado que se repete fechando todas as estrofes do poema, e vai-se-lhe o efeito carrancudo, a ideia e o sentimento sugeridos pelo fonema. Nevermore, nevermore, nothing more, nothing more… Temos aqui, ainda, um “r” que, na pronúncia inglesa, como que prolonga e amplifica a vogal antecedente. Disso a conclusão óbvia: para compreender a expressividade de grandes poetas, é indispensável conhecer a fonética do idioma em que compuseram. E, neste quesito, o leitor deste século só peca por desleixo.