É curioso notar algumas incompatibilidades entre mentes superiores. Parece haver um elemento obscuro que, em alguns casos, força-lhes a repulsão. Digo isso pensando em Pessoa e Nietzsche, ou melhor, em Pessoa para com Nietzsche. O português referiu-se ao alemão como um asceta louco admirador da força e do domínio. Noutras notas, a menção a Nietzsche vem quase sempre carregada de um tom pejorativo. O curioso é o seguinte: como artistas, há entre ambos muito em comum. No breve ensaio intitulado Apontamentos para uma Estética não aristotélica, Pessoa defende uma estética assentada na força, uma estética onde o grau supremo de expressão atinge-se pela potência máxima, uma estética em que o artista “force os outros, queiram eles ou não, a sentir o que ele sentiu, que os domine pela força inexplicável, como o atleta mais forte domina o mais fraco, como o ditador espontâneo subjuga o povo todo (porque é ele todo sintetizado e por isso mais forte que ele todo somado), como o fundador de religiões converte dogmática e absurdamente as almas alheias na substância de uma doutrina que, no fundo, não é senão ele próprio”. Nietzsche, um símbolo da força de expressão, progenitor de uma obra onde as exclamações saltam das folhas como foguetes, dizia que “a grandeza de um artista mede-se segundo a intensidade empregada para atingir o grande estilo”. É um belo resumo da teoria estética de Pessoa. Mas, ainda assim, incompatíveis…
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Convicções profundas, só as têm as criaturas superficiais
Hoje, vamos destes excertos de Fernando Pessoa:
Se há fato estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentada sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo própria. A contínua transformação de tudo dá-se também no nosso corpo, e dá-se no nosso cérebro consequentemente. (…) Ser coerente é uma doença, um atavismo, talvez; data de antepassados animais em cujo estádio de evolução tal desgraça seria natural.
A coerência, a convicção, a certeza, são além disso demonstrações evidentes — quantas vezes escusadas — de falta de educação. (…)
Convicções profundas, só as têm as criaturas superficiais.
Tornando-me um especialista
Escrevo um conto mentalizando frieza e aridez, e noto como já estou tornando-me um especialista neste tipo de narrativa que não faz senão suscitar sentimentos desgostosos. Privo-a de qualquer cor, qualquer vivacidade, qualquer emoção. Proíbo, também, as exclamações: torno forasteiro o espanto. Uma palavra para descrever o cenário. Adjetivos escassos. O arco de ação, naturalmente, cruel. Finalizo o trabalho, e o resultado é assombroso. Penso imediatamente em Swift. E imagino-me, em seguida, banido da Raça Humana e difamado pelos séculos dos séculos.
O cemitério das grandes obras
Fico aqui, pensando, na dimensão do cemitério das grandes obras. Por uma tendência natural, são os maiores artistas atraídos ao isolamento e, por uma consequência também natural, permanecem em maior parte no anonimato. Alguns — seriam muitos? — acabam recompensados pela história. Mas que dizer dos outros? quantos seriam? Nunca tive a oportunidade de entrar numa biblioteca antiga; tivesse-a, ser-me-ia obrigatório estimar a proporção de anônimos nas prateleiras literárias. Não que haja justiça neste mundo, nem que se deva escrever almejando qualquer prêmio, mas uma breve reflexão no referido cemitério faz-me a mente negrejar por completo. Pensar no esforço de uma vida, na postura corajosa e na resistência, a duras penas, desperdiçada… inútil como todo o resto… Penso nisso e maldizer o mundo parece-me uma obrigação.