Não pode despertar senão respeito a realização de Herberto Sales que, no conto Os vigilantes, construiu-o unicamente para fazer uma piada no fim. É uma bela apresentação! Decerto, a piada o justifica. E curioso notar que, às vezes, a piada é a preparação para a piada. A graça vai sendo trabalhada cuidadosamente muito antes do efeito final; cria-se, por assim dizer, o cenário oportuno para que ela irrompa surpreendendo. Então ela coroa a narrativa tal como a dita chave de ouro coroa um soneto: justificando o esmero precedente em ocultar ou salientar aquilo que é esclarecido no final. Justíssimo dedicar um conto inteiro a uma piada memorável!
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Às vezes estranha o acostumar-se aos heróis…
Às vezes estranha o acostumar-se aos heróis da grande literatura, e então voltar os olhos para o exemplo real de uma vida comum fracassada. Na grande literatura, nem sempre o herói se aventura como quer Joseph Campbell, mas este não erra ao notar que ele tende a evoluir e aprender. É, aliás, o efeito que se espera dos anos no curso de uma vida. Então observamos o exemplo real daquele que parece não ter aprendido nada, não ter amadurecido nada; aquele que tropeçou jovem e, velho, continua a tropeçar. É estranho porque parece um desperdício quase insultuoso, uma recusa ferrenha, inumana, de tomar lições da experiência. Esse é o único fracasso pleno: não tirar proveito daquilo que se viveu.
The long walk, de Slavomir Rawicz
Uma narrativa como esta dificilmente pode ser igualada pela ficção pura. Para fazê-lo, o escritor tem de empregar extrema habilidade dosando a dramaticidade do enredo, de modo que não soe exagerado, mas ao mesmo tempo comova e convença. Muito, muito difícil… porque, às vezes, o drama se concentra no não dito, no não possível ou não tentado, naquilo que não se concretizou. Do outro lado, temos esta narrativa impressionante, na qual o que vem relatado aparece com o peso exato daquilo que aconteceu. Os exageros são metodicamente dispensados, e ainda assim, a cada capítulo, a cada página, a impressão que se tem é de que a narrativa corre sempre em extremos, sendo preciso que o leitor se esforce para imaginar o grau de intensidade daquilo cuja expressão admitiria numerosas exclamações. Que são os artifícios artísticos diante de uma experiência assim?
Há autores com um poder de assimilação…
Há autores com um poder de assimilação verdadeiramente impressionante, e percebemos que muitas vezes não saberiam definir se as ideias que expressam são suas ou provenientes das referências que deixam transparecer. Decerto, o verdadeiro aprendizado tem aí algo de sua fundamentação. Uma ideia, para ser apreendida, tem de ser sentida como própria, ainda que posteriormente abandonada. Idealmente, porém, o maior intelectual será aquele que tudo abrange e tudo absorve; assim, nada lhe sendo estranho, é capaz de expressar tudo como seu.