Tal como se nota nas personalidades individuais, parece muito conveniente fazer uma distinção, na literatura, que separe autores cujo espírito inclina-se ao conhecimento e autores cujo espírito inclina-se ao prazer. A poesia, mais do que os outros gêneros, evidencia tratarem-se de tipos muito distintos, nos quais os anos provocam transformações diversas, de maneira que, aos primeiros, a obra parece ser muito mais dependente desta evolução. Assim que a tendência é que estes produzam o melhor de sua obra no final, ganhando os primeiros livros um caráter meio que preparatório, de maior interesse para o biógrafo do que para o leitor comum. Já os outros, não é raro que a maturidade estrague aquela verve juvenil da qual dependem suas melhores composições.
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O pudor linguístico e o pudor literário
O pudor linguístico e o pudor literário são coisas diferentes, embora, superficialmente, possam se confundir. Mas quando se analisa bem, percebe-se que há autores que possuem uma forte manifestação do primeiro, do segundo, de ambos ou de nenhum. E em cada caso específico, muito do autor se revela pelo havê-los ou não. Tomando a literatura como um todo que abrange bons e péssimos autores, o mais comum é que a falta de pudor literário seja evidência de falta de cultura; já quanto ao pudor linguístico, o mesmo não se pode dizer. O que se diz e o que se representa são coisas distintas, sendo a linguagem mero instrumento deste último, que pode ser empregado com maior ou menor intensidade, a depender da necessidade e da intenção. Linguisticamente, há impulsos que pedem expressões extremadas; do contrário, não se alcançará uma justa representação. Mas o íntimo de toda obra é anterior à linguagem, e é somente nele que se pode medir o grau de refinamento de um autor.
Hermann Hesse é um escritor-modelo
Hermann Hesse é um escritor-modelo. E pena que seja um exemplo tão raro, cujas páginas jamais fazem gastar o tempo do leitor. Ao lê-lo, experimenta-se a sensação de que o assunto abordado é sempre importante, a motivação artística é sempre verdadeira; e mesmo naqueles momentos em que o autor se permite voar para áreas mais nebulosas e incertas, como o faz em Demian, percebe-se que o intuito não é outro senão expressar artisticamente experiências reais. Por vezes, também vai por temas que não são os seus prediletos, mas são temas necessários, e que conferem à sua obra aquela importante abrangência que demonstra o autor não ter sido cego para o panorama geral da vida. Lê-lo é sempre uma grande satisfação!
Traduzi, ao inglês, dezenas de contos…
Traduzi, ao inglês, dezenas de contos neste último ano. E, ao contrário do que imaginava, diverti-me no demorado trabalho, ainda que me deparando o tempo inteiro com a insuficiência da tradução. Curioso foi rir-me durante o processo, algo que contrasta fortemente com meu estado de humor ao parir aqueles textos. Lembro-me bem… Após imergir-me na criação, o sentimento que predominava era outro. Há algo indescritível que se experimenta ao parir uma obra, enquanto se enfrenta as dificuldades do trabalho. Agora, tudo aquilo passou. Posso recordá-lo e revivê-lo com um distanciamento sereno, e rir-me do resultado de tão intensa aflição.