Decerto, minha sorte foi ter devorado…

Liberdade… Decerto, minha sorte foi ter devorado livros de finanças antes de descobrir a literatura, quer dizer, ter entendido a mecânica do dinheiro antes de cometer a insanidade de largar tudo para me tornar escritor. Assim, pude fazer algo que ninguém me ensinaria: estruturei um plano financeiro, paralelo ao plano de estudos para me capacitar a escrever. Preparei-me, através de um planejamento que ainda segue, para chutar o balde com segurança. Será que houve, alguma vez, escritor sem recursos com a mesma sorte? Fui salvo por esta circunstância especialíssima. Sem ela, se eu tivesse entrado em contato com esse papo de liberdade, acabaria muito, muito mal.

Disgrace, de J. M. Coetzee

Esta narrativa perturbadora é perpassada por uma apreensão indescritível, que nunca cessa à medida que a história avança. Lateja o sentimento de que algo está por acontecer, algo terrível, chocante, e contra a iminência se experimenta um impulso de fazer algo, de fazer qualquer coisa, o qual é repetidamente frustrado. Nada se faz; e, então, a narrativa nos vai carregando para os acontecimentos, como contrariando a nossa vontade de evitá-los, embora estejamos, simultaneamente, ansiosos por conhecê-los e matar de vez a apreensão. É uma construção interessante; o estilo do autor desaparece perante as cenas que descreve. Sobretudo, é um livro ao qual não se fica indiferente e que, talvez, encerre uma importante lição.

Quando Nabokov discorre sobre suas borboletas…

Quando Nabokov discorre sobre suas borboletas, elas se tornam interessantes mesmo para aquele que as despreza. Isso porque Nabokov, para além de ser um exímio escritor, quando discorre sobre borboletas, discorre sobre algo que o absorve, discorre entusiasticamente, fazendo com que ao menos parte deste grande entusiasmo se irradie para o leitor. Com tal exemplo, fica fácil perceber que a literatura possibilita leituras improváveis, imprevistas, até impossíveis, desde que o autor seja autêntico, e trate de assuntos que realmente o interessam — agindo como um anfitrião que, num ato de boa-fé, expõe ao visitante aquilo que de mais valioso julga possuir. Talvez o efeito mais evidente de um grande escritor seja justamente este: ele estimula, ainda que à força, o interesse no leitor.

“Sou filósofo; faço filosofia”

“Sou filósofo; faço filosofia” — diz o construtor de castelos imaginários, tal como diz aquele que brinca de criar, ordenar e adulterar palavras: “Sou escritor; faço literatura”. E embora ambos, talvez, sintam-se justificados pelo atributo que o ofício lhes confere, a verdade é que nada daquilo que produzem possui sentido existencial. Notá-lo parece bobagem, mas os anos passam e a vida pressiona por uma verdadeira justificação. O filósofo, o escritor, não podem encontrá-la no passado, por terem-no dedicado a motivações exteriores, descoladas de si. Então se arrependem; porventura ainda com tempo para redimi-lo, mas já tendo deixado a influência e o exemplo prejudiciais.