Às vezes, mesmo um renomado picareta, mesmo um ideólogo de quinta categoria, mentiroso e mal-intencionado, pode dar à luz páginas muito interessantes quando descreve suas experiências pessoais. A menos que também as falsifique, conseguirá experimentar na escrita exatamente aquilo que experimenta o grande escritor. E convencerá. Há nisto algo de especial: a escrita oferece a todos, sem distinção, idênticas possibilidades — e para bem aproveitá-las, basta tratar com seriedade o ato de escrever.
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Não há uma única notícia de jornal…
Não há uma única notícia de jornal que mereça ser impressa e guardada para o futuro, como se faz com toda a literatura de valor. Logo, como é possível que tantos leiam, e tantos se convençam da falsa importância atribuída aos jornais? O jornalismo nunca aproxima o leitor de nenhuma questão verdadeiramente importante. O que faz é afastá-lo de sua individualidade e metê-lo em questões absolutamente fora de seu campo de ação, que não interferem em sua vida, e quando interferem, é o tipo de interferência contra a qual nada se pode fazer. Uma contribuição prática, portanto, nula; para não dizer que, o mais das vezes, o jornalismo não inspira senão sentimentos ruins. O melhor é sempre desprezá-lo. E, dependendo dele para o próprio sustento, é largá-lo e buscar outra profissão. À parte isso, existe o bom jornalista. Mas o bom jornalista é um homem doente que não consegue largar o jornalismo porque padece de tê-lo como vocação.
A escrita atinge um novo patamar…
A escrita atinge um novo patamar após adquirir feitio de causa perdida. Como ocorre com estas, o esforço se enobrece e os farsantes renunciam diante da perspectiva infeliz. O trabalho, contudo, ganha inegável autenticidade, a qual se afigura como um prêmio mais valioso do que aquele que inicialmente se poderia esperar. A expectativa frequentemente encurta a vida da dedicação; quando, porém, nada se espera, o próprio esforço acaba se convertendo em fonte de satisfação.
O desterro, inspirador deste sentimento…
O desterro, inspirador deste sentimento que já motivou algumas das melhores obras literárias de todos os tempos, guarda algo de invencível e inexplicável. A realidade do sentimento não se questiona, mas ocorre que, muitas vezes, o desterro parece oferecer ao desterrado condições muito superiores àquelas vivenciadas na terra natal. Mesmo assim, a mente não se convence, nem abandona a convicção de que antes gozava de algo especial. Parece haver uma ligação que não se rompe, que o tempo só fortalece e que a distância transfigura num dever. Nem todos podem experimentá-lo, mas há de se reconhecer que, quando verdadeiro, é um sentimento muito nobre.