Se um sapateiro deu luz a centenas de páginas de interpretações metafísicas… Fico pensando: o escritor que se atrevesse a criar um personagem como Jakob Boehme cairia no ridículo. É inevitável. O raciocínio não admite tamanho contraste; recusar-se-ia inevitavelmente a creditar a narrativa. Não obstante, aí está… A primeira objeção da mente seria: “Um pensador dessa estirpe se não rebaixaria nunca a um trabalho manual”. Em seguida prosseguiria, insuportável como de costume: “Tais reflexões só brotam de uma natureza cem por cento devotada ao espiritual”. A conclusão: “História estúpida e falsa”. De idêntica maneira, julgaria caso defrontasse um Boehme vivo e falante. Nisto mede-se a vastidão da miséria do pensamento objetivo.
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As conferências de Thomas Carlyle
Meus dedos rebeldes estão ouriçados após o contato com as conferências de Thomas Carlyle. Querem respondê-lo, querem porque querem — mas não irão. Lamento dizer aos escravos que se controlem e contentem-se com a breve ironia que lhes já foi permitida. Thomas Carlyle, com efeito, é uma inteligência notável e instrutiva; a interpretação de seus “heróis” muito tem a acrescentar. Não sei por que motivo, analisá-lo traz-me Chesterton à mente: talvez porque ambos mereçam, a despeito da incompatibilidade patente, o meu aperto de mão.
A maneira de Nelson construir prosa
É curiosa a maneira de Nelson construir prosa. Seja nos romances, nos contos ou mesmo nas crônicas, é claríssima a sua obsessão em enquadrar o texto numa estética predefinida — age em prosa como fazem em verso os poetas. O andamento de suas narrativas segue quase sempre um protocolo, e o resultado é um estilo pronunciado e inconfundível. Houve o tempo em que eu julgava a padronização essencial para o grande estilo. Hoje, enxergo um pouco diferente. Admiro construções regulares, mas creio preferir variedade: velocidade num dia; noutro vagar, lenta cadência, vírgulas em vez de pontos finais. Estilos, formatos, compassos, e não dinamismo estático ou lentidão terminante. O difícil, contudo, é identificar mestres em múltiplos estilos, capazes de satisfazer numa mesma obra os anseios do habituado a alentar-se trocando de prateleira.
Uma peça e sessenta contos à força
Saíram-me uma peça e sessenta contos à força. Quanto à peça, espero ser-me a única, e não tenciono retornar a esse formato. Já quanto aos contos… é impressionante: está muito claro que o formato aborrece-me, contudo estou ciente que o trabalho não acabou; sinto-me em dívida, psicologicamente obrigado a terminar o que comecei, e é certo que não chegou o momento de brindar-me com o ponto final. Uma peça e sessenta contos à força: impelido pela consciência de que há temas sobre os quais não posso deixar de escrever.