A técnica do romance moderno, que expande as cenas, apresentando-as com maior riqueza de detalhes e explorando as minúcias interiores e exteriores dos acontecimentos, tem lá suas vantagens. Mas, às vezes, tem-se a impressão de que tal detalhamento enfraquece o enredo. Se tomamos como exemplo os contos populares antiquíssimos de algumas civilizações, vemos que, muitas vezes, a narrativa varia, os detalhes variam, podendo até haver mais ou menos cenas a depender da fonte; não varia, contudo, a sequência lógica da história, e nesta reside a sua força. O curioso é o seguinte: estes contos antigos, mesmo se narrados esquematicamente, desprovidos de artifícios literários, produzem praticamente o mesmo efeito; já um romance moderno, se desprovido das particularidades do estilo do autor, transforma-se noutra coisa bem diferente. As narrativas antigas facilmente podem, como foram e são, ser contadas oralmente sem que muito se perca, algo impossível de se fazer com um romance moderno. Este, só pode contá-lo o autor, e pelas linhas que já escreveu. Talvez, isso signifique que a história nunca ganhe verdadeira autonomia, o que pode ser favorável ou não.
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É muito estranho comparar o cenário cultural…
É muito estranho comparar o cenário cultural brasileiro de meados do último século com o atual. De jornais a revistas, da prosa à poesia, havia muito em circulação que, ainda hoje, lê-se com interesse. Quanto à crítica, era exercida por nomes respeitáveis, que faziam o mais difícil: desbravar obras recém-publicadas e arriscar um parecer. O público leitor só ganhava, e desfrutava de um ambiente que, hoje, percebe-se não ser natural. O estranho é que, em míseras duas gerações, tudo aquilo acabou. O florescimento cultural parece ter essa característica: exige décadas de atividade e, quando parece consolidado, é aí que mais esforço exige para não desvanecer.
A obra de Leopardi é prova de que não são necessárias…
A obra de Leopardi é prova de que não são necessárias muitas formas poéticas para produzir um forte efeito de variedade. Lendo os seus Canti, a última coisa que se sente é monotonia; e, ainda assim, lá estão sempre os decassílabos e seus quebrados. Contudo, pela variadíssima disposição dos versos e das rimas, nunca se sabe o que vem a seguir. E o cérebro, desafiado e entretido a captar a ordem, vai se satisfazendo do sentido que nunca se permite descair no banal. O problema da forma é real e relevante, mas só se justifica quando verdadeiramente há algo para se dizer.
Não há como não se divertir com uma boa história…
Não há como não se divertir com uma boa história de pescador, ainda que não se acredite em uma palavra dela. Mas, aqui, as peripécias, os exageros, e mesmo os absurdos provocam o riso, e não a aversão. Por quê? É interessante notar que existe esse tipo de mentira que diverte, que estimula e que gera um sentimento positivo no interlocutor. E ela abre espaço para todo um gênero literário em que a criatividade é livre para se manifestar. A história, quanto mais engenhosa e inverossímil, às vezes mais facilmente se grava na memória, e mais aumenta o mérito de seu autor. Talvez, o mistério deste fenômeno não seja de todo um mistério: nele, a mentira só funciona porque fundada na pureza de intenção.