No Brasil, pior do que notar o desaparecimento de grandes autores em razão de um conluio editorial descarado, é notar o desaparecimento daqueles que, sem qualquer oposição editorial, somem das prateleiras exclusivamente em razão da mesquinharia de seus herdeiros. Isso, sim, é inacreditável, quanto mais num país cujos grandes são poucos, e tendo-se em vista que os herdeiros certamente perdem agarrando-se a semelhante mesquinhez. Causa revolta notar que, morto o autor, sua obra é como reduzida a um produto pecuniário, cuja função é gerar algum dinheiro aos “herdeiros”, quando, em verdade, o dinheiro é mínimo, e os verdadeiros herdeiros ficam privados por lei do legado real. É de chorar!
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É impressionante a incapacidade de alguns críticos…
É impressionante a incapacidade de alguns críticos de diferenciar uma ideia de sua expressão, o que os conduz a uma lamentável interpretação literal. E vê-lo em supostos conhecedores de arte… Assim, associam ao autor a feição que a obra deixa transparecer. Em verdade, o método muitas vezes funciona; mas falha miseravelmente quando o motivo artístico se manifesta nas conclusões daquilo que se representou. Para o crítico, não deveria ser difícil ver o moralista em Nelson Rodrigues, o cristão em Dostoiévski, a sobriedade no explorador da loucura, a qualidade que, ciente de si mesma, representa a sua oposição. Tudo isso é demasiado simples, mas parece haver profissionais das letras que não tiveram a oportunidade de aprender.
Não se fará, e nem faria sentido que se fizesse…
Não se fará, e nem faria sentido que se fizesse uma nova Divina comédia, embora justamente possa ela ser considerada o modelo supremo de realização artística nas letras. Neste sentido, é forçoso admitir: a mudança do tempo exige uma arte que a represente. Contudo, o haver ali condensada toda a cultura de uma época, que se harmoniza com a manifestação de uma consciência individualíssima a qual, embora nela se movimente e por ela se expresse, consegue ao mesmo tempo pintá-la e julgá-la, é lição que o artista moderno faz muito bem em assimilar. O tempo presente é, e sempre será, uma oportunidade única. O novo é necessário, mas não sairá valioso se não fundado numa velha e imorredoura compreensão.
Uma nova orientação surge quando o escritor…
Uma nova orientação surge quando o escritor percebe e assume a herança intelectual da qual é beneficiário, e que através de sua obra tem de se manifestar. Ainda que não percebê-la seja difícil, assumi-la exige deliberação. Somente assim, integrando-se numa tradição que o precede, o escritor obtém a tranquilidade e a certeza de trabalhar em algo que o ultrapassará. Ao escritor moderno, nada pode fazer tão bem quanto inverter a tendência egoísta e vaidosa, encher-se de humildade e conscientemente dedicar a vida a dar continuidade a algo que já começou.