Às vezes é difícil controlar o forte desinteresse para com a literatura e seus artifícios, o qual surge após um contato com o extraordinário numa história real. Vem à mente toda a crítica de Northrop Frye, sistematizadora de variadíssimas possibilidades criativas, divisões em gêneros, modos, usos particulares de símbolos, mitos, etc., etc. Tudo isso, enfim, assaz interessante, mas que parece nada diante de uma simples experiência real. Surge a pergunta: para que se lê e para que se estuda? E então percebemos que a literatura, como qualquer ciência, quanto mais as estudamos sob um prisma estritamente técnico, mais deixamos de lado aquilo que verdadeiramente justifica uma criação. Muito, muito difícil não querer mandar para o diabo todos esses expedientes e recolher-se para sempre ao silêncio e à meditação.
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Tal como se nota nas personalidades individuais…
Tal como se nota nas personalidades individuais, parece muito conveniente fazer uma distinção, na literatura, que separe autores cujo espírito inclina-se ao conhecimento e autores cujo espírito inclina-se ao prazer. A poesia, mais do que os outros gêneros, evidencia tratarem-se de tipos muito distintos, nos quais os anos provocam transformações diversas, de maneira que, aos primeiros, a obra parece ser muito mais dependente desta evolução. Assim que a tendência é que estes produzam o melhor de sua obra no final, ganhando os primeiros livros um caráter meio que preparatório, de maior interesse para o biógrafo do que para o leitor comum. Já os outros, não é raro que a maturidade estrague aquela verve juvenil da qual dependem suas melhores composições.
O pudor linguístico e o pudor literário
O pudor linguístico e o pudor literário são coisas diferentes, embora, superficialmente, possam se confundir. Mas quando se analisa bem, percebe-se que há autores que possuem uma forte manifestação do primeiro, do segundo, de ambos ou de nenhum. E em cada caso específico, muito do autor se revela pelo havê-los ou não. Tomando a literatura como um todo que abrange bons e péssimos autores, o mais comum é que a falta de pudor literário seja evidência de falta de cultura; já quanto ao pudor linguístico, o mesmo não se pode dizer. O que se diz e o que se representa são coisas distintas, sendo a linguagem mero instrumento deste último, que pode ser empregado com maior ou menor intensidade, a depender da necessidade e da intenção. Linguisticamente, há impulsos que pedem expressões extremadas; do contrário, não se alcançará uma justa representação. Mas o íntimo de toda obra é anterior à linguagem, e é somente nele que se pode medir o grau de refinamento de um autor.
Hermann Hesse é um escritor-modelo
Hermann Hesse é um escritor-modelo. E pena que seja um exemplo tão raro, cujas páginas jamais fazem gastar o tempo do leitor. Ao lê-lo, experimenta-se a sensação de que o assunto abordado é sempre importante, a motivação artística é sempre verdadeira; e mesmo naqueles momentos em que o autor se permite voar para áreas mais nebulosas e incertas, como o faz em Demian, percebe-se que o intuito não é outro senão expressar artisticamente experiências reais. Por vezes, também vai por temas que não são os seus prediletos, mas são temas necessários, e que conferem à sua obra aquela importante abrangência que demonstra o autor não ter sido cego para o panorama geral da vida. Lê-lo é sempre uma grande satisfação!