Talvez, somente a poesia seja comparável…

Talvez, somente a poesia seja comparável à historiografia no Brasil, ambas com uma longa tradição de autores de altíssimo nível, dos mais variados estilos e enfoques. E o curioso é notar que, apesar desta vasta e excelente bibliografia à disposição, o brasileiro comum desconhece por completo a história do Brasil. É uma dessas ironias paralisantes. O americano médio tem lá sua opinião sobre todos os grandes eventos da história americana: conhece-os, ao menos. E nos Estados Unidos, basta entrar em qualquer livraria, em qualquer das extremidades do enorme país, para constatar o seguinte: não há, em nenhuma delas, seção maior do que a de história americana. No Brasil, a despeito dos grandes autores, tal não se passa. E os grandes autores, é bom que se diga, são tão grandes quanto desconhecidos do público geral. Assim, ficamos nessa: a engrenagem da cultura já parece existente; falta, no entanto, que algo force o arranque do motor.

Às vezes é difícil vencer a sensação…

Às vezes é difícil vencer a sensação de vertigem e esgotamento que brota nestes momentos em que parece se mostrar a vastidão inesgotável do campo da literatura e das ciências sociais. Uma única leitura interessante coloca cinco, dez outras na lista de espera, as quais se multiplicam por outras vinte ou trinta, deixando o pobre estudante de joelhos diante da impossibilidade de lê-las todas de uma vez ou, pior, diante da justa expectativa de uma nova escalada exponencial. Mas, então, impelido pela necessidade, tem de voltar àqueles velhos princípios: o primeiro, aquele que ensina valorizar o momento; o segundo, aquele que recomenda começar pelo mais importante. Afinal, experimenta o alívio de que terá, pelo resto da vida, companhia de valor.

O escritor iniciante se escandalizará…

O escritor iniciante se escandalizará se alguém lhe disser que nem o próprio Cioran concordava com as coisas que dizia, mas que, apesar disso, era um autêntico mestre da arte de escrever. Contudo, assim é. E exatamente por isso é tão difícil encontrar autores que escrevem como ele: porque Cioran levou às últimas consequências a necessidade de formular frases potentes. Para ele, não importa o conteúdo daquilo que está dizendo, mas sim o efeito da frase. E, em matéria de frases potentes, não são muitos os autores que podem se lhe cotejar.

Quando se tem alguma vivência…

Quando se tem alguma vivência com apostas e cassinos, e se conhece por experiência própria o ambiente, as sensações e os tipos que costumam rodear uma roleta, as cenas análogas em Dostoiévski, quer em sua ficção, quer em sua biografia, são apreciadas em um novo patamar. O Dostoiévski que teorizava e fazia anotações seríssimas sobre estratégia e probabilidade é uma das figuras mais fascinantes que se pode encontrar num cassino. Não há como não empatizar, e como não se divertir ao vê-lo imerso nesta batalha feroz entre o raciocínio e o sentimento, lutando por delinear algumas conclusões. A vontade é querer tê-lo como amigo. E talvez não haja traço que demonstre mais claramente a coragem e a sinceridade que residiam em seu coração.