Em literatura, não se ensina o bom gosto, e também não se ensina, nem se pode racionalizar, essa fina percepção que o bom leitor desenvolve e é infalível para detectar a falsidade num texto. Às vezes, mesmo que o autor impressione no manejo da linguagem, mesmo que a trabalhe com habilidade e, linguisticamente, o texto soe natural, tudo estará perdido caso ele careça de autenticidade. Neste caso, o falso berra e não há truque capaz de camuflá-lo.
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Se é legitimado pela repetição o drama…
Se é legitimado pela repetição o drama do jornalista que passa a vida carregando o sonho frustrado de fazer literatura, é preciso notar que, na maioria dos casos, tal sonho não passa de uma imagem idílica, como qualquer outra, concebida sem reflexão. O jornalista frustrado nunca reflete sobre aquilo que o jornalismo lhe proporciona e a literatura muito, mas muito dificilmente poderia igualar. Em primeiro lugar, um salário; depois, reconhecimento e reputação. Se bem analisarmos, são coisas sem as quais qualquer jornalista só se imaginaria trabalhando num pesadelo. Mesmo o pior jornalista recebe um salário e goza de algum prestígio, tem algum público que o escuta e que o lê. Num cenário sem nada disso, ainda faria literatura? É claro que não. Portanto, o alegado drama é sempre mais fantasioso que real.
A literatura, impossibilitada como se tornou…
A literatura, impossibilitada como se tornou de ser profissão, só pode hoje gerar uns tipos inadaptados e anormais. Porque, afinal, praticá-la é não menos que trabalhar sem expectativa de retorno, algo que ninguém conscientemente faz. Assim, o escritor como que destaca uma parte de seu tempo da “vida normal”, e quanto maior essa parte, quanto mais for autenticamente escritor, mais se afastará da norma, mais se concretizará anormal. Não há solução. E se é quase incontornável a tendência de que fracasse em levar uma vida comum, ao menos tornou-se mais fácil verificar a sinceridade de sua vocação.
Os vigilantes, de Herberto Sales
Não pode despertar senão respeito a realização de Herberto Sales que, no conto Os vigilantes, construiu-o unicamente para fazer uma piada no fim. É uma bela apresentação! Decerto, a piada o justifica. E curioso notar que, às vezes, a piada é a preparação para a piada. A graça vai sendo trabalhada cuidadosamente muito antes do efeito final; cria-se, por assim dizer, o cenário oportuno para que ela irrompa surpreendendo. Então ela coroa a narrativa tal como a dita chave de ouro coroa um soneto: justificando o esmero precedente em ocultar ou salientar aquilo que é esclarecido no final. Justíssimo dedicar um conto inteiro a uma piada memorável!