Pode-se dizer que, fundamentalmente, a literatura se destina a narrar, e portanto a preservar, aquilo que aconteceu. Sem ela, não haveria história, e não haveria cultura. Em algum momento, porém, percebeu-se que ela poderia mais, que ela poderia narrar, também, aquilo que não aconteceu, mas poderia ter acontecido ou poderia acontecer. Talvez seja impossível dizer de quando data essa descoberta. Desde então, contudo, é nisto que se baseou a grande literatura: no factual ou no verossímil, ou em ambos ao mesmo tempo. O que salta aos olhos é que não importa o quanto o tempo passe: deste norte a literatura não se pode desviar. O escritor, portanto, tem de necessariamente ter em mente a realidade enquanto escreve; do contrário, não será capaz de produzir uma obra de valor. Dê à imaginação plena liberdade, empregue alegorias, faça o que quiser; mas a sua obra será sempre, sempre, confrontada com o real.
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É fácil imaginar o desprezo de um intelectual…
É fácil imaginar o desprezo de um intelectual ocidental ao percorrer algumas páginas de literatura oriental, e fácil entender as razões de seu desprezo. Ocorre, porém, que ele repara a ausência de seu padrão costumeiro, mas não se questiona sobre o fundamento do que lê. Fizesse isso, talvez abriria uma porta. Talvez mudasse, talvez crescesse, talvez aprendesse algo novo, que jamais imaginou. Mas a ignorância é desses pecados que não se admite. Reconhecer que, com uma vida inteira nas costas, não se percebeu o essencial… É muito mais confortável desperdiçar também o que resta dela.
Embora nunca assumida, e nunca apregoada…
Embora nunca assumida, e nunca apregoada, há uma diferença qualitativa demasiado óbvia entre a poesia que se funda em mentiras e aquela fundada em impressões verdadeiras. Assumi-lo, contudo, é ver com novos olhos grande parte dos poetas laureados, algo que ninguém parece se dispor a fazer. Mas é preciso notar que, se tomados a sério, talvez não haja piores conselheiros e piores mentirosos do que estes inumeráveis poetas que tudo envolvem de sensualidade: o que chamam de “beleza”, “doçura”, “encanto” é simplesmente falso. Como, pois, reputá-los tão eminentes se só sabem trabalhar com ilusões? Falta-lhes realidade, e a percepção de que a verdadeira beleza permanece. É com certeza mais difícil, mas não é impossível conceber uma poesia laudatória que se ampare numa intuição real.
Na vida de estudos, cedo ou tarde…
Na vida de estudos, cedo ou tarde, tem de ser desenvolvida a habilidade de lidar com o paradoxo de que só se deve, ou só se deveria ler aquilo que se deseja reter, embora o conhecimento de pilhas e pilhas de livros seja necessário para o avanço em qualquer estudo sério. Para este dilema, nunca há solução definitiva. É preciso ler, e ler lentamente; mas o interesse real que sustenta a leitura atenciosa quer ir atrás de fontes, quer alargar mais e mais a própria compreensão: o resultado é uma lista de próximas leituras que só cresce, indefinidamente. Logo se percebe que não é possível ler tudo quanto se pretende, que é preciso escolher. Mas escolher já encerra outro problema: é preciso mesclar o seguro ao misterioso, ao inexplorado, pois nunca se sabe exatamente o que neles se pode encontrar. Enfim, o estudo tem de se deter em listas, títulos, índices, e se não encontra tudo o que procura, é força reconhecer que a finitude denota necessariamente um limite naquilo que se pode procurar.