É muito estranho comparar o cenário cultural brasileiro de meados do último século com o atual. De jornais a revistas, da prosa à poesia, havia muito em circulação que, ainda hoje, lê-se com interesse. Quanto à crítica, era exercida por nomes respeitáveis, que faziam o mais difícil: desbravar obras recém-publicadas e arriscar um parecer. O público leitor só ganhava, e desfrutava de um ambiente que, hoje, percebe-se não ser natural. O estranho é que, em míseras duas gerações, tudo aquilo acabou. O florescimento cultural parece ter essa característica: exige décadas de atividade e, quando parece consolidado, é aí que mais esforço exige para não desvanecer.
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A obra de Leopardi é prova de que não são necessárias…
A obra de Leopardi é prova de que não são necessárias muitas formas poéticas para produzir um forte efeito de variedade. Lendo os seus Canti, a última coisa que se sente é monotonia; e, ainda assim, lá estão sempre os decassílabos e seus quebrados. Contudo, pela variadíssima disposição dos versos e das rimas, nunca se sabe o que vem a seguir. E o cérebro, desafiado e entretido a captar a ordem, vai se satisfazendo do sentido que nunca se permite descair no banal. O problema da forma é real e relevante, mas só se justifica quando verdadeiramente há algo para se dizer.
Não há como não se divertir com uma boa história…
Não há como não se divertir com uma boa história de pescador, ainda que não se acredite em uma palavra dela. Mas, aqui, as peripécias, os exageros, e mesmo os absurdos provocam o riso, e não a aversão. Por quê? É interessante notar que existe esse tipo de mentira que diverte, que estimula e que gera um sentimento positivo no interlocutor. E ela abre espaço para todo um gênero literário em que a criatividade é livre para se manifestar. A história, quanto mais engenhosa e inverossímil, às vezes mais facilmente se grava na memória, e mais aumenta o mérito de seu autor. Talvez, o mistério deste fenômeno não seja de todo um mistério: nele, a mentira só funciona porque fundada na pureza de intenção.
Em tese, Meetings with remarkable men…
Em tese, Meetings with remarkable men, de George Gurdjieff, foi concebido com “objetivos semelhantes” aos da Autobiografia de um iogue, de Paramahansa Yogananda. Mas só mesmo entre aspas se pode dizê-lo, porque a discrepância entre as obras é tão gritante, que não seria exagero tê-las como modelos, uma da verdade, e outra da falsificação. Uma delas é deveras instrutiva, apresenta homens verdadeiramente notáveis e atinge, pois, o seu “objetivo”; já a outra se resume a uma sucessão de relatos cujo propósito não é senão inflar o ego de um autor que, sempre que parece estar prestes a dizer algo importante, astuciosamente afirma que apenas o dirá num volume ainda a ser publicado e que você, leitor, terá de comprar. Mas, sobretudo, o que ambas as obras escancaram é um contraste entre personalidades se não opostas, absolutamente distintas. As qualidades que transparecem em Yogananda faltam por completo em Gurdjieff: o primeiro inspira respeito e admiração, enquanto o último somente antipatia.