Após a leitura deste Meetings with remarkable men…

Impressiona notar que, após a leitura deste Meetings with remarkable men, no qual George Gurdjieff relata ora com indiferença, ora jactantemente, as inumeráveis vezes em que se aproveitou da inocência alheia, manipulou, mentiu e ludibriou, ainda haja quem queira tê-lo como mestre espiritual! Vem à mente aquele dito carioca (seguramente é carioca): “Todo dia saem de casa um malandro e um otário…”. Gurdjieff é desses que cheira à mentira, e um conhecedor deste tipo de natureza nota com facilidade que alguns de seus relatos, se não inventados, são entremeados de exageros e falsificações que visam unicamente impressionar. Que coisa! “Personalidade magnética”, “guia místico”, “mestre espiritual”… Por estas histórias que não deveriam ser contadas fora de um confessionário, Gurdjieff demonstra se credenciar tão somente a picareta profissional.

Às vezes, mesmo um renomado picareta…

Às vezes, mesmo um renomado picareta, mesmo um ideólogo de quinta categoria, mentiroso e mal-intencionado, pode dar à luz páginas muito interessantes quando descreve suas experiências pessoais. A menos que também as falsifique, conseguirá experimentar na escrita exatamente aquilo que experimenta o grande escritor. E convencerá. Há nisto algo de especial: a escrita oferece a todos, sem distinção, idênticas possibilidades — e para bem aproveitá-las, basta tratar com seriedade o ato de escrever.

Não há uma única notícia de jornal…

Não há uma única notícia de jornal que mereça ser impressa e guardada para o futuro, como se faz com toda a literatura de valor. Logo, como é possível que tantos leiam, e tantos se convençam da falsa importância atribuída aos jornais? O jornalismo nunca aproxima o leitor de nenhuma questão verdadeiramente importante. O que faz é afastá-lo de sua individualidade e metê-lo em questões absolutamente fora de seu campo de ação, que não interferem em sua vida, e quando interferem, é o tipo de interferência contra a qual nada se pode fazer. Uma contribuição prática, portanto, nula; para não dizer que, o mais das vezes, o jornalismo não inspira senão sentimentos ruins. O melhor é sempre desprezá-lo. E, dependendo dele para o próprio sustento, é largá-lo e buscar outra profissão. À parte isso, existe o bom jornalista. Mas o bom jornalista é um homem doente que não consegue largar o jornalismo porque padece de tê-lo como vocação.

A escrita atinge um novo patamar…

A escrita atinge um novo patamar após adquirir feitio de causa perdida. Como ocorre com estas, o esforço se enobrece e os farsantes renunciam diante da perspectiva infeliz. O trabalho, contudo, ganha inegável autenticidade, a qual se afigura como um prêmio mais valioso do que aquele que inicialmente se poderia esperar. A expectativa frequentemente encurta a vida da dedicação; quando, porém, nada se espera, o próprio esforço acaba se convertendo em fonte de satisfação.