Não se fará, e nem faria sentido que se fizesse uma nova Divina comédia, embora justamente possa ela ser considerada o modelo supremo de realização artística nas letras. Neste sentido, é forçoso admitir: a mudança do tempo exige uma arte que a represente. Contudo, o haver ali condensada toda a cultura de uma época, que se harmoniza com a manifestação de uma consciência individualíssima a qual, embora nela se movimente e por ela se expresse, consegue ao mesmo tempo pintá-la e julgá-la, é lição que o artista moderno faz muito bem em assimilar. O tempo presente é, e sempre será, uma oportunidade única. O novo é necessário, mas não sairá valioso se não fundado numa velha e imorredoura compreensão.
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Uma nova orientação surge quando o escritor…
Uma nova orientação surge quando o escritor percebe e assume a herança intelectual da qual é beneficiário, e que através de sua obra tem de se manifestar. Ainda que não percebê-la seja difícil, assumi-la exige deliberação. Somente assim, integrando-se numa tradição que o precede, o escritor obtém a tranquilidade e a certeza de trabalhar em algo que o ultrapassará. Ao escritor moderno, nada pode fazer tão bem quanto inverter a tendência egoísta e vaidosa, encher-se de humildade e conscientemente dedicar a vida a dar continuidade a algo que já começou.
Um dos aspectos mais difíceis da literatura…
Um dos aspectos mais difíceis da literatura é que, tendo em vista que somente escritores afortunados criam ou desfrutam da possibilidade de dedicação integral à escrita, somado ao retorno às vezes indistinto e à impressão de que escrever é um fardo, facilmente se relega a profissão. Daí que poucos perseveram, e mesmo estes, às vezes, não relatam mais que desconsolo no ato de perseverar. Felizmente, o dever é muitas vezes incoercível, e o labutador aflito julga erroneamente o retorno daquilo que se produziu.
É uma lástima que as Confissões, de Santo Agostinho…
É uma lástima que as Confissões, de Santo Agostinho, não tenham feito escola, e o estilo, ou melhor, o tipo de discurso ali empregado não se encontre em praticamente nenhum outro lugar. Esta obra ensina, numa palavra, o que é discursar com sinceridade máxima, algo que não apenas qualquer escritor, mas qualquer homem tem de saber. E, em verdade, é impossível atingir tal extremo senão quando se discursa para um observador sabidamente onisciente, do qual nada se pode esconder e que, para cada palavra dita, sabe outras tantas mais que não se pôde ou não se quis confessar. É uma lástima que tal modelo não tenha feito escola…